Um papo sobre a curadoria do Multiplicidade

Em menos de 10 dias, o Multiplicidade volta a ocupar o Oi Futuro Flamengo com uma programação especial, sempre baseada na arte e tecnologia, e desenvolvida através de oito anos pelo curador Batman Zavareze.

O tema da curadoria 2012 é o encontro do analógico com o digital e sua complementaridade. Batman buscou apresentações que dialogassem entre si de alguma forma, e que se complementassem e desenvolvessem em cima do tema proposto. Segundo o curador, por mais rudimentar que seja algum tipo de tecnologia, esta não deve ser encarada como antagônica ao que existe de mais moderno e inovador. Uma não anula a outra, mas se complementam e são bases de pesquisas.

Com essa base, atrações como O Grivo  não se contrapõe ao trabalho extremamente high-tech das atrações provenientes do SARC (Sonic Arts Research Center), centro de pesquisa musical  fundada pelo compositor Karlheinz Stockhausen. John Cage, homenageado pelo seu centenário, recebe uma roupagem única pelas mãos do PianOrquestra utilizando aparatos manuais e microcomputadores.

“Nos anos 80/90 o papo era rever os sistemas analógicos e as tecnologias do passado.  Na virada do século o papo foi uma fascinante e obsessiva atração pelo digital, era da Internet mudando os conceitos sociais. 

Hoje o pensamento é abrir um dialogo hibrido entre low-tech e hi-tech, juntos. Esta compreensão que todas as belezas tem seu espaço é uma maturidade incrivel, permitindo que o artesão conversasse com o cientista. O novo artista digital passa obrigatoriamente pelas formações analógicas e digitais e isso será explicito no ano de 2012 no Festival. Reforçar o dialogo do mais novo e a inovação do passado é um reflexo natural da multiplicidade das artes.’ explica Batman Zavareze.

Selecionamos algumas das perguntas que sempre fazem ao Multiplicidade a respeito da longevidade do projeto, pensamentos acerca da curadoria, entre outras questões levantadas ao longo destes 8 anos de Festival.

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Como surgiu o nome e a idéia do Multiplicidade?

Este nome Multiplicidade é autorreferencial, e eu sou um reflexo profissional e espiritual desta avalanche de informações. Eu amo a rabeca e a pick-up, a bossa nova e o break-beat, o lápis e a internet. É sério, venero de paixão toda essa multiplicidade.

A proposta vem ao encontro de um desejo pessoal artístico: abrir um espaço para unir imagem e música através da tecnologia. A ideia era propor uma plataforma cultural contemporânea com regularidade, para formar público e fomentar a produção de conteúdo digital, e isso vem acontecendo claramente com os nossos 7 anos de existência.

Já havia visto diferentes formatos de festivais na Europa — Sónar, Ars Electronica, Netmage, Transmediale, Mapping, etc.

O desafio, no Rio, seria formatar algo com originalidade. O Festival tem o compromisso de preencher um calendário de junho a dezembro, sempre na última quinta-feira do mês, com um repertório plural com muitos sotaques, nacionais e internacionais, sem classificações óbvias do universo eletrônico, construindo um encontro singular e inusitado entre imagem

O que você diria hoje, em 2012, ao observar o que o Multiplicidade fez lá em 2005? Qual sua visão sobre esse legado?

Natural. Eu me influenciei por vários Festivais, mas sentiria mediocre se não fizesse algo novo. Sabia que se fizesse um trabalho original, igualmente me tornaria uma referência para muita gente. De fato o Festival Multiplicidade ao longo dos ultimos 7 anos conquistou um espaço único, construindo uma plataforma de arte digital no estado do Rio de Janeiro e consequentemente um belo casamento com a história do 1º centro de arte e tecnologia do estado, o Oi Futuro.Para mim é fundamental buscar algo autoral e regular. Sem isso não há legado social e não tem a menor importância. Para isso acontecer tem que haver liberdade, risco, continuidade e pesquisa.O Festival Multiplicidade promove algo inegociável, uma especie de dogma: ele é intenso, pois gera impacto nos artistas, no público e nos realizadores culturais.
Você sai das performances amando ou odiando, é o preço de algumas novidades, mas nunca sai imune.

Pessoalmente, quais seus trabalhos favoritos destes oito anos de Multiplicidade?

Eu me interesso pelo TODO. Eu gosto dos fracassos mais que os que tiveram unanimidade. O Conjunto de riscos e acertos são o grande investimento artístico de uma plataforma cultural.
O que podemos esperar nos próximos anos do projeto, tanto em termos de curadoria como em conteúdo?

Inquietação cultural.
E onde você se inspira e de onde vêm as informações?

O processo criativo é o que me instiga e me inspira. Adoro escutar ideias e projetar algo que jamais foi realizado. É claro que assistir a espetáculos, viajar, conversar, debater, ruminar e mudar meus pensamentos me enriquecem.Nos últimos 5 anos, para ser mais preciso, o Festival Multiplicidade vem cumprindo uma itinerância regular mundo afora pelo menos duas vezes por ano, visitando festivais internacionais que são muito importantes na busca de parcerias com pesquisadores, artistas, universidades e também para convidar artistas a vir ao Rio.Ver festivais e projetos artísticos mais maduros nos ajuda a ir além, abre-nos a mente para provocar as produções nacionais. Nada se compara à experiência em si, mesmo que exista toda uma facilidade para acessar qualquer tipo de conteúdo na web. A minha maior obsessão é pelas experiências multissensoriais.

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