Estudando Tom Zé em cinco perguntas

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Figurinha premiada no grande álbum da música popular brasileira, Tom Zé – atração da noite de abertura do Festival Multiplicidade, no próximo dia 21, às 20h – deu certo por linha tortas. Um dos pilares da Tropicália, ele construiu uma carreira solo de inovações e experimentações pop que nunca levaram ao topo da paradas, mas garantiram a esse baiano de Irará respeito e o status de culto, Resgatado do ostracismo no fim dos anos 80 por David Byrne, Tom Zé virou, como ele diz, artigo de luxo no exterior. Aos 84 anos, ele é uma referência para qualquer artista que pretenda navegar por sons alternativos. No papo abaixo, Tom Zé dribla a lógica de uma entrevista e conta, à sua maneira, como fisgou Byrne, quando vai fazer o disco de sua vida e qual o seu futuro possível.

1) Qual é sua relação com o David Byrne? Você costuma dizer que jogou uma mensagem na garrafa ao mar e ele pegou.

Eu já tinha decidido voltar para Irará, para tomar conta do posto de gasolina de meu sobrinho Dega. Quando fiz o disco “Estudando o samba”, senti que o trabalho que estava realizando poderia ter grande importância. Por isso, bolei a capa como  uma armadilha, pra ver se alguém  me localizava neste mundo de Deus. Fui ao departamento de capas da gravadora pra dizer a ideia que eu tinha: eles aprovaram e eu fui a uma casa de material de construção comprar corda e arame farpado para fazer aquele rodapé da capa. Sugeri também que a capa fosse o mais careta possível: letras bem convencionais, nenhuma fotografia minha, etc. A armadilha funcionou, conforme o próprio David Byrne conta na contracapa da edição americana do disco, que foi intitulado “The best of Tom Zé”. Ele narra que chegou numa loja de discos no Rio de Janeiro e viu na prateleira um disco com a palavra “Samba” no título, mas sem foto do autor nem de praia, sem nenhum biquíni. Ele colocou o disco na sacola e só veio a ouvi-lo em casa, nos Estados Unidos. A audição desencadeou tudo.

2) O que o Tom Zé de 2021 diria para o Tom Zé de 1968, na época do Festival da Record, que ganhou com “São Paulo meu amor”?

Garanto que em 1968 eu tinha 53 anos menos e estava justamente conhecendo São Paulo. A música “São Paulo, meu amor” foi feita no dia 21 de abril de 1968. Foi um dia gelado. Saí de minha casa de manhã, na Rua Conselheiro Brotero, andei até a Alameda Barros, virei à direita e caminhei para a banca de revistas que ficava a uns 20 metros. Quando me aproximei, vi a manchete de um jornal gritando: “Prostitutas invadem o centro da cidade”. Era o “Notícias Populares”, com uma reportagem de Renato Lombardi comentando que, como as prostitutas tinham sido proibidas de receber visitas na Rua Aurora, elas começar a procurar  clientes por toda a redondeza. Imediatamente, tive a ideia da canção, porque naquele tempo era hábito muito frequente falar mal de São Paulo e ir ficando por ali. Por isso, eu enumero as coisas más em cada estrofe, e parto para o refrão com o verso: “Porém com todo o defeito / Te carrego no meu peito”. Curioso é que a música ia sendo desclassificada, quer dizer, nem entraria no festival. Mas Augusto de Campos conta que foi fazer uma visita ao júri exatamente nesse momento. E que então  comentou: “Escuta, eu conheço essa música. Prestem atenção a ela”,

3) Você acha que deu certo errando?

Bem, no fim dos anos 80, as pessoas se queixavam que eu tinha exacerbado o experimentalismo na minha música. Mas esse fator, que estava me derrotando, hoje em dia é visto como como meu acerto e minha vitória.

4) Quando você vai lançar o disco de sua vida?

Ao fazer um disco não consigo traduzir nem 1% do que pensei. E essa deficiência me faz imediatamente pensar em compor outro disco depois. Quando acabo fazendo, a tentativa de colocar nele 100% das ideias não é conseguida mais uma vez. Nunca vou conseguir fazer o disco de minha vida.

5) Qual o futuro possível para você? Ou os futuros possíveis

Ora, a profissão que eu exerço não tem aposentadoria compulsória. Logo, espero ter a felicidade de morrer em cima do palco

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Sobre blogmultiplicidade

O Multiplicidade_Imagem_Som_inusitados é um festival de performances audiovisuais que acontece desde 2005 no Rio de Janeiro e que mostra ao público um amplo repertório de atrações no Oi Futuro Flamengo e na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. O seu principal conceito é unir em um mesmo palco arte visual e sonoridade experimental.

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