Sobre blogmultiplicidade

O Multiplicidade_Imagem_Som_inusitados é um festival de performances audiovisuais que acontece desde 2005 no Rio de Janeiro e que mostra ao público um amplo repertório de atrações no Oi Futuro Flamengo e na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. O seu principal conceito é unir em um mesmo palco arte visual e sonoridade experimental.

Batman Zavareze aponta os diversos ‘Brasis’ nos 15 anos do Multiplicidade

Batman

Idealizador e curador do festival Multiplicidade – que estreia sua edição 2019 no dia 27/09, com show do BaianaSystem no Circo Voador e segue para uma ocupação no Oi Futuro Flamengo, entre os dias 30/09 e 6/10 -, Batman Zavareze faz um balanço dos 15 anos do evento, explica o tema deste ano (os “Brasis” de um país virado ao avesso), conta o motivo da escolha do BaianaSystem para a abertura (e para uma instalação exclusiva no Oi Futuro Flamengo) e reflete sobre as mudanças e o impacto da tecnologia nas artes em geral.

- Hoje, você tem um cinema em casa, com uma seleção farta de séries, só para ficar num exemplo de escolhas que se tornaram muito acessíveis – diz ele. – Mesmo assim, acho que uma experiência presencial, provocativa e extrapolada, é como uma viagem que fica tatuada para sempre em nossa mente, em nossas memórias afetivas.

Qual o balanço desses 15 anos de Multiplicidade?

Batman Zavareze – O festival surgiu num momento em que a palavra “multiplicidade” nas artes era quase maldita. O teatro era teatro, o cinema era cinema. Vivi um momento onde todos queriam rotular o festival. Senti prazer em surfar numa zona livre e inclassificável. Em 2006, participando de uma mesa com o artista Cao Guimarães, ele me disse que vivia num limbo e isso era muito bom. Ele dizia que o pessoal do cinema o chama de artista plástico e acontecia o inverso com o pessoal das artes contemporâneas, que o chamava de cineasta. Naquele momento , escutando aquilo, me senti fortalecido.
Não era o único, mas sabia que estava trilhando um caminho onde não era um especialista e isso deveria ser ponto principal para traçar meu caminho, num modelo mais intuitivo e aglutinador de ideias. Quando a ruptura dessas fronteiras passou a ser a nova regra das artes, conseguimos, finalmente, aplicar em uma serie de editais, já que até então éramos inexistentes. Fomos rotulados de plataformas de artes híbridas.
O fato que atravessamos os nossos primeiros quatro anos (ainda não existia Facebook para desfocar a atenção de ninguém com brigas ou autopromoção) despertando curiosidades de várias pontas: artistas ávidos por experimentar em espaços diferentes e técnicos em busca de novas profissões que buscavam sair do quadrado. Desde o inicio, sempre tivemos parcerias internacionais e aos poucos construímos pontes importantes na Europa a ponto de termos realizados 15 colaborações no exterior com total compreensão do que poderíamos criar. Numa delas, levamos 50 artistas para Florença numa co-curadoria com um dos atuais curadores da Tate Modern. Fomos pioneiros nesse dialogo no Rio, tanto como uma plataforma que unia artes integradas, como patrocinadores de artistas residentes durante períodos longos. Sempre promovemos eventos presenciais únicos, construídos por muitas mãos juntas. Isso possibilitava ter sempre um pé cravado na experimentação, na pesquisa e na inovação.
Em torno de uma seis, sete anos de existência, ficou muito claro que a filosofia do DIY (“Do it yourself”, “Faça você mesmo”), alavanca fundamental da era digital, estava migrando para o termo mais inclusivo DIWO (“Do it with others”, “Faça com os outros”). Isso foi muito estimulante vendo coletivos criando, propondo e se apresentando com propostas novas com as tecnologias e recursos disponíveis naquele momento.
Hoje, com tantas descobertas facilitadas pelas redes sociais, surge um fenômeno crescente da pasteurização das ideias – vejo que há muitos projetos semelhantes, parecem copias de tão iguais. Acredito que todos estão pesquisando as mesmas coisas, induzidos pelos algoritmos do Google, alem de existir um enorme desinteresse do publico em geral que tem se afastado de experiências totais e imprevisíveis, devido a uma enorme competição com o sofá e a tela de bolso. Isso tem gerado uma preguiça coletiva em descobrir e criar, o que afeta diretamente um mergulho mais vertical em novas questões artísticas, mesmo com criação de ferramentas tecnológicas extremamente sedutoras para criar algo novo. Estamos vivendo um tempo que todos reclamam que não tem tempo para nada, mas as pessoas continuam perdendo muito tempo com besteiras irrelevantes. Estamos imersos numa tremenda pasmaceira, numa narrativa que mais parece um triunvirato das efemeridades e obsolescências.

Para um evento que teve como temas recentes o barulho e a utopia, o que representa o tema desse ano, BRASIS?

BZ – Estamos imersos numa trilogia. Nada foi premeditado, mas sinais foram dados pelas tensões que estamos vivendo no Brasil e no mundo desde 2015. Sendo um evento com muita atenção pelas estéticas visuais, em 2017 optamos por documentar como jamais tínhamos feito as sonoridades investigadas pelo festival, e o resultado foi um vinil com as experiências capturadas naquele ano. Tiramos o pé do acelerador das imagens projetadas, uma referencia na memória de todos quando falam sobre o Multiplicidade. Fomos com 30 artistas para o Xingu, com uma seleção de criadores emergentes que eram invisíveis na maioria das exposições contemporâneas e precisavam de uma oportunidade. Trouxemos o Xingu para o festival. Foi um ano que a escuta, confrontada pelo tema BARULHO, foi o norte para promover algumas reflexões artísticas importantes.

Em 2018, falamos de resistência, existência, saídas possíveis para buscar caminhos poéticos e isso era representado simbolicamente pelos espaços utópicos, com uma instalação inusitada do coletivo croata NUMEN que utilizou 32 km de fitas durex para criar uma um penetrável pelo qual passaram mais de 40 mil visitantes. Ao fazer o livro, enxergamos que as coisas estavam de ponta cabeça e imprimimos a palavra Brasil virada. Ao começar o ano de 2019, com todos perplexos com o retrocesso que a arte, a cultura e as liberdades de expressão têm sofrido, demonizadas, vimos que muitos pontos se interligavam, e era um momento para olhar para dentro, valorizar o artista brasileiro. Percebi que nunca tivemos uma programação 100% brasileira. Essa trilogia, que passa por utopias e distopias, chama-se BRASIS.

Qual a importância de ter um grupo como o BaianaSystem na abertura do festival e também numa das instalações?

BZ – O BaianaSystem é a síntese das muitas questões que precisamos expor através do tema BRASIS. São artistas baianos, fora do eixo Rio-SP, que estão vivendo um momento maravilhoso no Brasil e no mundo. Trabalham de forma muito autoral a união entre imagem, som e tecnologia. São envolvidos por um contexto que sempre provoca muitas reflexões, e com eles, certamente iremos celebrar nossos 15 anos de existência num evento catártico. Por tudo que esta acontecendo, queria começar com uma catarse. Neste ano, teremos uma programação em 15 atos com muitos artistas que foram invisíveis ao longo de nossa trajetória. E os homens invisíveis são temas recorrentes nos personagens expostos nas canções do grupo. O BaianaSystem tem raízes culturais fundamentais para entendermos quem somos.

A tecnologia sempre foi o elemento de costura entre as diversas linguagens artísticas do festival. O que mudou na relação do Multiplicidade com ela, da primeira edição, em 2005, até hoje? Como manter essa relação ainda excitante após tanto tempo e com a tecnologia já tão disseminada entre nós?

BZ – Tudo mudou. Em 2005 as experiências presenciais competiam com o controle remoto, um instrumento interativo que já era incrível. Hoje, você tem um cinema em casa, com uma seleção farta de séries, só para ficar num exemplo de escolhas que se tornaram muito acessíveis. Mesmo assim,acho que uma experiência presencial, provocativa e extrapolada, é como uma viagem que fica tatuada para sempre em nossa mente, em nossas memórias afetivas. Lembro do meu primeiro filme no cinema, da minha primeira viagem internacional, do show do Kraftwerk, da primeira onda que surfei até a areia e da excursão da escola ao planetário.
Existe uma fórmula fácil de atingir e de manter o sucesso que refuto. Dito isso, o festival sai de uma janela que não se sustenta e nunca se sustentará pela bilheteria ou por ativações de empresas de marketing dentro do evento porque muitas vezes apresentamos projetos novos, projetos pilotos. Independente das tecnologias, sejam elas analógicas ou digitais, existe uma função investigativa e impulsionadora de pesquisas artísticas autorais.
Nós brasileiros, mesmo das grandes capitais, com acesso a tudo, não somos um povo que foi educado em frequentar museus. Isso existe apenas para uma minoria cada vez mais isolada. Se não existe essa cultura de consumir arte, nosso papel torna-se ainda mais importante ao apresentar novas propostas artísticas que tem pouco espaço, ao inventar uma cena com regularidade, ativando uma economia com profissionais capacitados e educando o público a ver algo novo e instigante.
Da mesma forma que o festival surgiu gerando infinitas expectativas, eu acredito que tudo tem inicio, meio e fim. Fizemos contribuições importantes para a cena artística, mas não quero me reinventar pautado pela moda ou por likes sem propósitos. Existe uma mensuração artificial de sucesso que pouco me interessa. Se um dia uma cultura de mercado prevalecer como condição de existência , fecharemos um ciclo e vamos inventar uma nova relação com o que construímos de legado até então.

De mãos dadas

unnamedO Multiplicidade se faz com Gente.

Gente espelho de estrelas
Reflexo do esplendor
Se as estrelas são tantas
Só mesmo o amor

Adilson, Adra, Adriana, Aïcha, Alberto, Alcíbano, Alex, Alexsander, Alvaro, Ana Beatriz, Ana Lucia, Ananda, Anatacha, Anderson, Anderson, André, Andre, Antoine, Antônio, Barbara, Batman, Bernardo, Brunna, Bruna, Bruno, Denise, Calbuque, Carla, Claudia,Claudio, Consuelo, Cristiana, Christina, D’angelo, Daniele, Danielle, Danilo, Diego, Douglas, Edson, Edson, Eliane, Eurico, Evandro, Fernanda, Fernando, Flavio, Francisco, Franck, Fugaz, Gabriela, George, Gilberto, Guaracy, Gustavo, Hamilton, Haroldo, Igor, Isis, Ismael, Jairo, Jandaira, Janice, João, João, João, Jorge, Jorge, Jose, José, José, José Augusto, José Carlos, Joseph, Joyce, Julio, Leandro, Leonardo, Leo, Leozito, Leticia, Leyanne, Luan, Luana, Luciana, Luciana, Magnovaldo, Marcele, Marcelo, Marciel, Marcio, Marcio, Maria Clara, Marco Antonio, Marco Antônio, Maria, Maria do Carmo, Maria Julia, Mariana, Mariluze, Matheus, Milton, Mirian, Monna, Nado, Nathalia, Pamela, Patricia, Pedro, Pedro, Phill, Rafaela, Raphael, Raquel, Reinaldo, Renata, Renata, Ricardo, Roberto, Roberto, Rodolfo, Rodrigo, Rodrigo, Rogerio, Rodrigo, Rodrigo, Roner, Rostand, Rubens, Sanannda, Sandro, Sara, Sergio Ricardo, Silvio Roberto, Siri, Susana, Suzana, Tatiana, Teitiane, Teresa Cristina, Teresinha, Thaissa, Thais, Thaissa, Thales, Thaysa, Theo, Thiago, Thiago, Victor, Vitor, Vivianne, Vilson, Vinicius, Yuri, Zelia, Zezé.

Gente espelho da vida
Doce mistério
Vida, doce mistério
Vida, doce mistério
Vida, doce mistério*

Todxs de mãos dadas. Resistindo. Existindo. Ninguém soltando a mão de ninguém.

Balanço da temporada:
> 78 dias
> 28 ações
> 30 Mil expectadores

OBRIGADO!!!!!! QUE VENHA 2019!!!!!

*Inspirado em Caetano Veloso extraindo trecho da letra Gente de sua autoria.

A expansão dos sentidos pelas imagens de Phil Niblock e os sons de Tatá Ogan

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Por Carlos Albuquerque
Fotos: Bleia Campos

Foi um contraste de grandes proporções. Exibido em três imensas telas numa das salas da Fundição Progresso, durante o ColaborAmérica, o filme “The movement of the working people”, de Phil Niblock, mostrava imagens da árdua rotina de trabalhadores no Brasil, México, China e Indonésia, com gente tecendo redes, quebrando pedras, pescando etc, tendo ao fundo um som minimalista e hipnótico. Em frente às telas, colchões gigantes espalhados pelo chão abrigavam e confortavam a plateia itinerante do local, ao longo das oito horas de projeção da obra, com gente curtindo, relaxando e até dormindo enquanto assistia ao filme. No escuro daquele supercinema alternativo, montado pelo Multiplicidade, criou-se uma curiosa contraposição de situações. Esforço vs descanso. Movimentação vs contemplação. Trabalho vs lazer.

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A celebrada obra de Niblock já havia sido, parcialmente, apresentada – e discutida pelo autor – durante o começo da temporada do Multiplicidade 2018, no Centro Cultural Oi Futuro e no Lab Oi Futuro. Mas só dessa vez ela foi exibida em suas proporções devidas – telas lineares de 12 metros, fundo musical a pleno vapor -, fazendo jus ao gigantismo do trabalho do mestre norte-americano da arte sonora. Mistura de cinema expandido, retrato antropológico e música experimental, “The movement of the working people” foi gerado ao longo de mais de 20 anos de pesquisa e produção até chegar ao looping de oito horas exibido no ColaborAmérica. Foi uma gigantesca janela aberta para, sem trocadilhos, futuras colaborações entre os dois festivais.

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E após tanto trabalho, foi a vez da movimentação dos povos dançantes se instalar no encerramento do evento. Num espaço a céu aberto, a DJ Tatá Ogan, outra contribuição do Multiplicidade, esquentou a noite com uma apimentada seleção de grooves, da cumbia ao trap, do carimbó ao hip-hop. Através dela, a pista virou um breve espaço utópico, com a diversidade musical refletindo o olhar para o todo. Festas boas são assim.

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A fenda espaço-tempo aberta por ‘Chronostasis’

Chronostasis

Por Carlos Albuquerque
Fotos: Bleia Campos

No fim da tarde de sexta-feira, o movimento era frenético na Fundição Progresso por conta do ColaborAmérica, festival de novas economias da América Latina. Humanos subiam e desciam as escadas do local, entravam e saíam de salas de debate, conversavam e debatiam nos corredores em torno da área de alimentação, onde copos descartáveis eram condenados e o indefectível hamburguer artesanal – ícone gastronômico da cultura empreendedora – marcava presença. Num canto, perto de onde se apresentava a DJ Érica Alves, com seu grooves orgânicos, uma porta, entreaberta por cima de uma faixa onde estava escrito “Multiplicidade”, parecia destoar de tudo, dando entrada para uma sala, cercada por panos, completamente escura. Era como uma fenda para um outro universo, bem diferente daquele exterior, onde sons e imagens inusitados estavam prestes a se instalar.

De fato, pouco depois das 19h, essa sensação foi transformada em realidade – uma estranha realidade – com o início da performance “Chronostasis”, da dupla francesa Franck Vigroux, músico que passeia do metal às texturas eletrônicas, e Antoine Schmitt, artista especializado em instalações. Parceiros desde o começo da década, os dois vêm desenvolvendo um trabalho no qual suas especialidades se misturam num enigmático novelo audiovisual. “Chronostasis” – que pega o nome de um fenômeno neurológico, no qual o tempo parece pausar por alguns segundos – é o mais recente fruto dessa combinação e sobreposição de talentos.

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Por cerca de 40 minutos – talvez mais, talvez menos – Vigroux e Schmitt criaram um ambiente de profunda abstração, um buraco negro que parecia prestes a sugar todos os presentes, inclusive eles dois. Em torno da dupla, uma estrutura circular, em forma de planeta, com incontáveis satélites retangulares, girava sem parar, ora alongando, ora contraindo suas dimensões, enquanto uma sequência de sons e ruídos, que variavam de contemplativos a perturbadores, ricocheteava pelas paredes daquela caixa preta.

Então, de repente, tudo parou, restando apenas o som ambiente – a música para os ouvidos de John Cage. Os aplausos vieram, mas não a chegada das luzes. Só quando as portas foram abertas é que o mundo exterior, real (?), voltou a ser dominante. Nele, humanos seguiam movimentando-se pelo ambiente da Fundição, conversando, rindo e até dançando, apesar da chuva fina, ao som do DJ Nepal. A fenda aberta por “Chronostasis” tinha sido fechada. Mas o tempo, apesar da distração geral, continua a ser relativo.

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Uma noite de sons inusitados à mesa

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Por Carlos Albuquerque
Fotos: Francisco Costa

A mesa estava posta. Em cima dela, caixas de metal, blocos de madeira, pequenas chaves de fenda, apitos, sinos, chocalhos, um boneco amarelo, um celular, uma espécie de ratoeira e até mesmo uma língua de sogra. Foi com essa inusitada “louça” que o artista suíço Roland Bucher serviu porções especiais de barulho aos comensais presentes à performance “Noise table”, realizada em edição especial do Multiplicidade 2018 na Sede das Cias, na Lapa, no centro do Rio. A noite contou também com uma palestra do vídeoartista e escritor Raimo Benedetti em torno do seu livro “Entre pássaros e cavalos”, com a participação do diretor e roteirista Bebeto Abrantes.

Criação do próprio Bucher, a noise table é, como indica o nome, um instrumento musical em forma de mesa, que “toca” – ou faz barulho com – objetos colocados em sua superfície. Projeto de Bucher quando ainda era estudante do equivalente suíço ao ensino médio, a mesa atua como uma espécie de sampler e unidade de efeitos touchpad, programada em Max/MSP, uma linguagem bastante popular para criações audiovisuais. Obra em constante progresso, ela tem sido aperfeiçoada pelo artista desde então. “É um processo de aprendizado e evolução contínuo, inclusive no modo como utilizo a mesa”, disse ele, em entrevista, um pouco antes da apresentação.

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Como um masterchef de sons inusitados, Bucher serviu um pequeno banquete de ruídos e texturas ao longo de pouco mais de 30 minutos de performance. Apesar de ser um baterista, ele não traz ritmos para a noise table, que funcionada acoplada a um laptop. Em vez disso, vai criando, aleatoriamente, séries de sons e efeitos abstratos – ora dispersivos, ora evocativos – ao colocar e arrastar os objetos na superfície da mesa. Ciente da curiosidade que sua criação desperta, ele fez questão de conversar com o público sobre a noise table após o show, explicando, em detalhes, como o instrumento funciona. Alguns nunca mais vão olhar para um saleiro da mesma maneira.

Raimo

A noite foi aberta com boas conversas também, com Raimo Benedetti contando a fascinante história de Eadweard James Muybridge, fotógrafo norte-americano, e Éttiene-Jules Marey, cientista francês. Os dois, que, coincidentemente viveram entre 1830 e 1904, são os protagonistas de “Entre pássaros e cavalos”, que tem o subtítulo “Muybridge, Marey e o Pré-Cinema”. Em sua apresentação, Benedetti mostrou, com projeções em um  telão, como o trabalho dos dois foi importante para o desenvolvimento da linguagem cinematográfica, antes mesmo da invenção do cinematógrafo pelos irmãos Lumière, em 1895.

Sanannda Acácia lança “There’s No Such Animal”

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Acaba de ser lançada a segunda aparição em álbum do projeto Quasicrystal, There’s No Such Animal, da artista visual e sonora Sanannda Acácia.
Em setembro, Sanannda participou da abertura do #Multiplicidade2018 com Aproximação por QuasiCrystal, mostrando, durante sua apresentação, que tem sensibilidade ímpar e uma propriedade rara sobre sua obra. Além da apresentação na noite de estréia da mostra, a artista também ministrou um workshop extremamente instigante onde apresentou suas referências conceituais e seus processos de criação sonora. Sanannda parte do princípio que todo sólido apresenta uma estrutura cristalina e quase todo mineral apresenta uma estrutura cristalina em sua composição molecular atômica. Ela explora, assim, a quebra sutil de periodicidade das estruturas cristalinas.
Radicada no Rio de Janeiro, ela participa ativamente da cena underground da cidade e faz música desde de 2013. O projeto Quasicrystal se inspira em ciência e cristalografia para criar som. As sonoridades criadas dão densidade a topografias e universos ficcionais inspirado em ciência e magia. Sanannda explora o uso de sintetizadores, gravações de campo, sampling e procedimentos com fita k7. Graças a esses processos, a artista pode esculpir topologias e dar vida aos fantasmas.

Neste segundo momento do projeto Quasicrystal, as limitações do meio seguem como potenciais criativos de vida, arte e ficção, numa busca pela materialidade dos engendramentos de sua obra. Segundo a própria Sanannda, “Quasicrystal é um projeto que abriga as temáticas de topografia e imaginação. Quasicrystal é uma estrutura cristalina que não possui célula unitária e nem padrão de repetição periódica em seu esqueleto, algo dado por muito tempo como impossível nos sólidos.”
There’s no such animal é ruído e melodia. A arte sonora de Sanannda habita os espaços limítrofes do som e do pensamento como forma de vida e arte.

O novo álbum está agora no ar, para escuta e download, no bandcamp da Seminal Records. Nele, Sanannda Acácia oferece dez litanias espectrológicas de ruídos, pedais e vozes.
Com suas experimentações sonoras, Sanannda traz uma experiência mais corpórea e presente no espaço visível, criando criando paisagens sonoras que vibram com o som e com as intensidades do corpo, buscando inspiração na ciência para fazer música.

OUÇA AQUI!
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A vida entrelaçada em um iceberg

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Para o meio ambiente, os icebergs são o canarinho na mina de carvão. São esses gigantescos blocos de gelo que dão os primeiros sinais de alterações climáticas. E esses alertas não param de acontecer, como tem demonstrado inúmeros estudos científicos e reportagens sobre o aquecimento global.

Para artistas como Fernando Velázquez – em cartaz no #Multiplicidade2018 com a obra em VR “Iceberg” – e Adriene Hughes, tais formas são também uma poética inspiração para refletir sobre a relação entre ser humano e natureza.

Após uma viagem de 20 dias à Groenlândia em 2015, a artista visual norte-americana  criou o belíssimo ensaio fotográfico “Threaded icebergs”, no qual insere linhas geométricas, semelhantes aos fios de uma tecelagem. Através delas, simboliza a passagem do vento, da luz, da água e do tempo por essas montanhas de gelo. “São como histórias do passado, presente e futuro esculpidas nos icebergs”, descreve ela em seu site.

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Dez coisas que aprendemos sobre Phill Niblock

Phill no LabSonica, onde apresentou raridades de sua coleção

Niblock no Lab Oi Futuro, onde mostrou seus filmes e apresentou raridades de sua coleção de fotos

Ele chegou devagarinho, como é de esperar de um homem de 85 anos. Aos poucos, porém, Phill Niblock – cineasta, fotógrafo e mestre Jedi dos sons minimalistas – foi se soltando. Depois de uma ruidosa performance na noite de estréia do Multiplicidade 2018, de duas palestras no Lab Oi Futuro (nas quais mostrou slides recém-descobertos de suas viagens ao Brasil nos anos 80) e de alguns papos informais, eis o que descobrimos sobre ele:

1) Só ouve jazz (quando ouve).
2) Não vai ao cinema desde os anos 70.
3) Considera John Cage seu mentor.
4) Gosta de ouvir sua música bem alta (não por acaso, os integrantes do Sonic Youth são seus fãs, o que o faz sorrir).
5) Raramente lê jornais (“A última vez acho que foi há seis meses”).
6) É amigo de Jocy de Oliveira, pioneira do trabalho multimídia no Brasil.
7) Diz estar bastante “incomodado” com a presença de Donald Trump na presidência dos EUA.
8) É formado em economia, mas nunca exerceu a profissão.
9) Não usa o celular para fotografar, mas carrega uma pequena câmera digital para registros e imagens (“Mas nada especial, só coisas triviais”).
10) É viciado em Paciência.

Uma estréia pontuada por desafios, reflexões e algum barulho

WhatsApp Image 2018-09-17 at 20.55.29Por Carlos Albuquerque

Obra em progresso gera obra em progresso. Para rebater a agressiva grandiosidade de um condomínio de três prédios que começa a ser erguido ao redor do Oi Futuro Flamengo – sufocando e abalando sua entrada principal – o arquiteto e artista plástico Pedro Varella gerou “Ações no pátio”, uma das mais instigantes atrações da estréia do Multiplicidade 2018. Subvertendo a estrutura e o conceito de uma construção em andamento – no caso, o muro escorado e o tapume instalado no local -, ele embaralhou necessidade técnica e proposta artística, realidade e imaginação, criando algo genuinamente singular. E em vez de um improvável tapete vermelho, abriu janelas, demarcou áreas de risco, aparou arestas e recebeu os convidados com um sinal vermelho de alerta que, em tempos incendiários, parecia dizer: “Centros culturais em perigo. Ressaca à vista”.

Lá dentro e também no IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil), outras metáforas, desafios e reflexões aguardavam quem chegava numa noite de segunda-feira de tempo instável, sujeita a chuvas e trovoadas. Na entrada, a realidade também era confrontada com a instalação de realidade virtual “Iceberg”, do artista uruguaio (radicado no Brasil) Fernando Velázquez. Uma fila se formou para adentrar o filme em 360º no qual blocos de gelo flutuam soltos em um ambiente de gravidade zero, simbolizando a conflituosa relação do homem com o ambiente.

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Um andar acima e no primeiro piso do IAB – que recebia também o lançamento do vinil “Barulho”, com sons da edição 2017 do festival -, a viagem era mais palpável, com a espetacular obra “Tape”, do coletivo croata Numen. Feito com quilômetros de fita adesiva, o concorrido trabalho penetrável fazia lembrar um enorme casulo ou uma gigantesca teia de aranha (ou ainda o ventre de um “alien”, lembraram alguns mais afeitos à ficção-científica). Os passeios pelo seu interior – três pessoas de cada vez – eram feitos em meio a uma alegria quase infantil e também uma sensação de insegurança e estranhamento. “É uma volta ao útero, só que já adulta”, resumiu uma mulher ao final da aventura.

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No teatro, a história era outra e remetia ao mote da edição anterior do festival, BARULHO, com as apresentações de Sannanda Acácia e Phil Niblock. Sannanda veio primeiro. Munida de computador, controladora, mixer e um amplificador valvulado, a artista sonora executou a obra “Aproximação”, com seu projeto Quasicrystal. Durante cerca de uma hora, ela construiu, progressivamente, uma densa paisagem de ruídos e distorções, sobrepondo texturas metálicas numa sinfonia siderúrgica, industrial, desafiadora, pontuada por flashes de luz estroboscópica. Ao final, Sannanda simplesmente saiu do palco e se sentou na platéia, sem definir um formal encerramento para a performance. Após alguns instantes de silêncio e indecisão, os aplausos vieram assombrados, nervosos, catárticos.

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Acompanhado pelo saxofonista Livio Tragtenberg, Niblock veio em seguida, na apresentação mais esperada da noite. Eminência da música de vanguarda, ele apresentou a obra audiovisual “Environments Series”, casando seus sons minimalistas com as imagens da série “The movement of people working”. Mostrando por que é venerado por artistas como Lee Ranaldo e Thurston Moore, do Sonic Youth, Niblock, de 85 anos, tocou alto, muito alto, criando um contrastante fundo musical para a plácida e repetitiva movimentação de pescadores chineses de ouriços do mar. O transe de sua ação só foi interrompido por um problema numa das caixas, que fez a performance chegar ao fim um pouco antes do previsto. Experiente com os imprevistos do meio ambiente, ele não se abalou e rumou dali, amparado por uma bengala, para um universo aparentemente mais controlado: o restaurante Lamas, onde fechou a noite.

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Fotos: Francisco Costa e Diana Sandes (Phill Niblock)

 

Caminhos de utopia, insistência e romantismo poético

Muros desabam, bairros se transformam, cidades cedem à gentrificação. Cabe a nós reinventá-las

Muros desabam, bairros se transformam, cidades cedem à gentrificação. Cabe a nós reinventá-las

“Acordar não é de dentro. Acordar é ter saída”
“Auto do Frade”, João Cabral de Melo Neto

No meio da travessia, o #MULTIPLICIDADE2018 aposta em uma fuga do espaço-tempo através da arte. Desde a Grécia Antiga, a busca por alternativas de sociedade perpassou a literatura e a arte, revelando outras narrativas: do distópico ao quimérico.

O tema ESPAÇOS UTÓPICOS norteia nossa curadoria em 2018. Em tempos nebulosos, nosso mote é o RESISTIR e o EXISTIR como únicas saídas [EXIT]. A força e visualidade destas palavras são o motor, o catalisador desta edição, pois como bem apontou o poeta Torquato Neto nos anos 70, “as palavras não são armas inúteis”. Desde sua primeira edição, o MULTIPLICIDADE é atravessado pelas reminiscências das tecnologias do passado e pelo desejo das tecnologias futuras, mas, no presente, o corpo humano ainda é o que está por trás de todas as invenções, tentando sempre resistir e buscar novas formas de existir num cenário à deriva. Muros desabam, bairros se transformam, cidades cedem à gentrificação. Cabe a nós reinventá-las, para que, através delas, possamos ressignificar paisagens imaginárias, em busca de futuros viáveis.

Neste ano, apresentamos obras que aspiram a um lugar melhor do que o aqui e agora. O line-up desta temporada é extremamente diverso, composto por artistas de diferentes horizontes e origens, e mostra como os escapes pela arte são plurais. A escolha por repertórios híbridos e indisciplinados acompanha o MULTIPLICIDADE desde sua origem. Por mais distintas que sejam suas linguagens, os trabalhos aqui reunidos são peças fundamentais num labirinto que tenta compor caminhos de utopia, insistência e romantismo poético.

Em 2018, o MULTIPLICIDADE propõe ao público outras formas de pensar, estar e habitar o espaço comum. A saída que nos move não aponta necessariamente para fora. Há saídas possíveis por entre e para dentro

Batman Zavareze
Curador do Multiplicidade