Tom Zé na fachada do museu expulsa o pandemônio das pessoas

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 Bebeto Abrantes
Ontem, 21/01/2021, rolou o primeiro acontecimento cultural do ano: a abertura da 16º edição do Festival Multiplicidade. Num país onde nada continua, como diz o poeta, só o fato de nesse momento grave, duro e triste de pandemia/pandemônio, Batman Zavareze ter disponibilizado nas nossas telas o festival, com o apoio de sempre do Oi Futuro e de outras entidades, já é motivo de júbilo, perseverança e resistência.
Além da bela e instigante performance do artista japonês Daito Manabe, com sua coreografia “algoritimada-e-ampliada”, pudemos assistir online um show HISTÓRICO de nosso querido Tom Zé, projetado na fachada do Museu Nacional.
Sim, simplesmente Tom Zé + Museu Nacional! Este, o museu do homem brasileiro tragicamente destroçado pelo descuido habitual de nefastos governantes com nossos equipamentos culturais. E Tom Zé, artista que corporifica no jeito, em vida e obra, um dos homens brasileiros – correndo o risco de generalizar: o homem sertanejo. O homem do coração dos brasis. Brasis de dentro, profundos.
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Por isso afirmo que ontem à noite tivemos o primeiro acontecimento cultural do ano de 2021. A potência que nasce dessa ideia de projetar Tom Zé e sua arte nas paredes do Museu Nacional é indiscutível e difícil de aquilatar agora. Mas, SIM, ontem o Festival Multiplicidade abriu o ano jogando luz, dança e música no Museu Nacional, espalhando poesia, alegria e esperança.
Fotos de Leonardo Aversa

Uyra Sodoma é semente, flor, folha e galhos da floresta

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Emerson Mundukuru é Uyra Sodoma, que é a Árvore que Anda. São partes de um mesmo processo, que conecta ciência, arte e militância: a bióloga (de Manaus) com mestrado em ecologia que se transforma na drag, uma entidade “em carne de bicho e planta”, montada com materiais orgânicos, protagonista de combativas performances em defesa da floresta, que já ecoaram do país ao exterior. Atração do Festival Multiplicidade 20_21, Emerson-Uýra-Árvore resume sua história e explica um pouco dos seus encantos (e poderes) no papo abaixo.

1) Como surgiu Uyra? Qual foi o processo de criação dessa personagem? Existiu um estopim para que ela surgisse?

Me inspiro no que diz nosso mestre Ailton Krenak, e vejo meu trabalho como mais uma tentativa de adiar o fim do mundo. Por isso, busco falar do que é belo, único, potente e habita o nosso quintal, tanto a terra quando o coração. Mas meu trabalho também é um alerta sobre o que adianta esse fim. Vejo Uyra como um canal que gera imagens que o olho já não vê, como as violências que nos cercam, sejam elas concretas ou simbólicas, mas sempre cotidianas.

2) De que forma sua formação de biólogo abastece Uyra e suas performances? Como é essa conexão?

Reunir biologia e arte foi um caminho complementar que encontrei para falar de conservação, ampliando nosso próprio entendimento sobre a vida e suas expressões. Meu trabalho é composto por nexos entre diversidade biológica e cultural e violência ambiental e social. Utilizo a matéria orgânica como parte do meu corpo, agregando novas formas e caminhos estéticos possíveis. No conjunto há uma fala, sempre conectada à história daquele elemento orgânico e do seu encontro com o meu corpo, um corpo coletivo. Sementes, flores, folhas, galhos, tudo tem história.

3) Como você descreve as obras que vai apresentar no Festival Multiplicidade, “Manaus, uma cidade na aldeia” e “Quintal”?

Como todo o Brasil, Manaus também foi construída sobre Território Indígena. Na vídeo-performance “Manaus, uma cidade na aldeia”, aparições de Uyra em locais e monumentos de Manaus trazem à superfície uma história pouco contada, inundada por trechos e consequências da violenta ocupação colonial da Amazônia central. Emerge também, a partir da Mata que conta a resistência dos povos indígenas que permanecem habitando, de múltiplas e adaptadas formas, as cidades brasileiras sobre as aldeias. Já “Quintal” é uma performance que aborda como o elementar Terra, metaforicamente apresentado como o quintal, o nosso entorno atual, se conecta com os processos de nascer, crescer, se reproduzir e morrer, E nascer de novo, após a morte pandêmica.

 

Estudando Tom Zé em cinco perguntas

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Figurinha premiada no grande álbum da música popular brasileira, Tom Zé – atração da noite de abertura do Festival Multiplicidade, no próximo dia 21, às 20h – deu certo por linha tortas. Um dos pilares da Tropicália, ele construiu uma carreira solo de inovações e experimentações pop que nunca levaram ao topo da paradas, mas garantiram a esse baiano de Irará respeito e o status de culto, Resgatado do ostracismo no fim dos anos 80 por David Byrne, Tom Zé virou, como ele diz, artigo de luxo no exterior. Aos 84 anos, ele é uma referência para qualquer artista que pretenda navegar por sons alternativos. No papo abaixo, Tom Zé dribla a lógica de uma entrevista e conta, à sua maneira, como fisgou Byrne, quando vai fazer o disco de sua vida e qual o seu futuro possível.

1) Qual é sua relação com o David Byrne? Você costuma dizer que jogou uma mensagem na garrafa ao mar e ele pegou.

Eu já tinha decidido voltar para Irará, para tomar conta do posto de gasolina de meu sobrinho Dega. Quando fiz o disco “Estudando o samba”, senti que o trabalho que estava realizando poderia ter grande importância. Por isso, bolei a capa como  uma armadilha, pra ver se alguém  me localizava neste mundo de Deus. Fui ao departamento de capas da gravadora pra dizer a ideia que eu tinha: eles aprovaram e eu fui a uma casa de material de construção comprar corda e arame farpado para fazer aquele rodapé da capa. Sugeri também que a capa fosse o mais careta possível: letras bem convencionais, nenhuma fotografia minha, etc. A armadilha funcionou, conforme o próprio David Byrne conta na contracapa da edição americana do disco, que foi intitulado “The best of Tom Zé”. Ele narra que chegou numa loja de discos no Rio de Janeiro e viu na prateleira um disco com a palavra “Samba” no título, mas sem foto do autor nem de praia, sem nenhum biquíni. Ele colocou o disco na sacola e só veio a ouvi-lo em casa, nos Estados Unidos. A audição desencadeou tudo.

2) O que o Tom Zé de 2021 diria para o Tom Zé de 1968, na época do Festival da Record, que ganhou com “São Paulo meu amor”?

Garanto que em 1968 eu tinha 53 anos menos e estava justamente conhecendo São Paulo. A música “São Paulo, meu amor” foi feita no dia 21 de abril de 1968. Foi um dia gelado. Saí de minha casa de manhã, na Rua Conselheiro Brotero, andei até a Alameda Barros, virei à direita e caminhei para a banca de revistas que ficava a uns 20 metros. Quando me aproximei, vi a manchete de um jornal gritando: “Prostitutas invadem o centro da cidade”. Era o “Notícias Populares”, com uma reportagem de Renato Lombardi comentando que, como as prostitutas tinham sido proibidas de receber visitas na Rua Aurora, elas começar a procurar  clientes por toda a redondeza. Imediatamente, tive a ideia da canção, porque naquele tempo era hábito muito frequente falar mal de São Paulo e ir ficando por ali. Por isso, eu enumero as coisas más em cada estrofe, e parto para o refrão com o verso: “Porém com todo o defeito / Te carrego no meu peito”. Curioso é que a música ia sendo desclassificada, quer dizer, nem entraria no festival. Mas Augusto de Campos conta que foi fazer uma visita ao júri exatamente nesse momento. E que então  comentou: “Escuta, eu conheço essa música. Prestem atenção a ela”,

3) Você acha que deu certo errando?

Bem, no fim dos anos 80, as pessoas se queixavam que eu tinha exacerbado o experimentalismo na minha música. Mas esse fator, que estava me derrotando, hoje em dia é visto como como meu acerto e minha vitória.

4) Quando você vai lançar o disco de sua vida?

Ao fazer um disco não consigo traduzir nem 1% do que pensei. E essa deficiência me faz imediatamente pensar em compor outro disco depois. Quando acabo fazendo, a tentativa de colocar nele 100% das ideias não é conseguida mais uma vez. Nunca vou conseguir fazer o disco de minha vida.

5) Qual o futuro possível para você? Ou os futuros possíveis

Ora, a profissão que eu exerço não tem aposentadoria compulsória. Logo, espero ter a felicidade de morrer em cima do palco

Multiplicidade 20_21, totalmente online, tem elenco variado e colorido,

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Com artistas japoneses de destaque na abertura e no encerramento, além de um cast variado e colorido, o Festival Multiplicidade 20_21 anuncia a sua 16ª temporada, em formato 100% digital, entre os dias 21 e 24 de janeiro, celebrando Clarice Lispector (com a frase/lema “O que eu quero ainda não tem nome”) e também a ciência, a educação, a história e, claro, a cultura em toda sua diversidade.

“Estamos sendo artisticamente massacrados no Brasil, não só pela inesperada pandemia planetária, mas também pelo projeto político do pandemônio”, explica o artista visual Batman Zavareze, criador do festival, “Por isso, o tema dessa temporada é inspirado livremente num texto de Clarice Lispector (do livro “Perto do coração selvagem”): LIBERDADE É POUCO. O QUE EU QUERO AINDA NÃO TEM NOME”.

Daito

O evento começa no dia 21 de janeiro, com a exibição de uma obra de um dos criadores digitais mais importantes da atualidade, o japonês Daito Manabe (foto acima), seguida por um show especial de Tom Zé num vídeo-mapping na fachada do Museu Nacional (Rio de Janeiro), um dos maiores acervos de memória do Brasil e patrimônio da Humanidade, que ardeu em chamas em 2018. O público poderá ver as performances nos canais do YouTube do Festival Multiplicidade e do Oi Futuro.

Segundo Batman Zavareze, a ideia de projetar a apresentação de Tom Zé – que será intercalada por depoimentos de Russo Passapusso e Gregorio Duvivier – num espaço que representa tanto para o país é, virtualmente, jogar luz sobre o museu e, ao mesmo tempo, celebrar a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), gestora do espaço, que está celebrando 100 anos. “Estamos promovendo uma nova campanha de arrecadação para a reconstrução do Museu Nacional”, diz Zavareze.

Carlos do Complexo Shani

Além de Tom Zé e Daito Manabe, outros treze artistas convidados, entre nacionais e internacionais, vão apresentar um repertório que justifica a multiplicidade que o festival carrega no nome. A seleção inclui representantes do cinema, do VJing, da música, da arte digital, das artes visuais, da vídeo-arte, da performance e do xamanismo. São eles: Ana Frango Elétrico + Fernanda Massotti, Carlos do Complexo, Novíssimo Edgar, L_cio, Renato Vallone, Cashu & Mari Herzer, Bianca Turner, Uyra Sodoma, HEXORCISMOS AKA Moisés Horta Valenzuela (México), Hyewon Suk (Coréia do Sul), Genesis Victoria (Colômbia), Dillon Bastan (EUA), Tornike Margvelashvili AKA Mess Montage (Georgia) e Ryoji Ikeda (Japão).

Nessa temporada, o Festival Multiplicidade tem, pela primeira vez, a curadoria compartilhada. Além de Batman Zavareze, assinam a programação o jornalista e curador musical Carlos Albuquerque, o artista sonoro chileno Nico Espinoza, o DJ e produtor musical Nado Leal, o creative coder Clelio de Paula e a diretora criativa e curadora Amnah Asad.

A programação completa:

21/1/21 – 20h

- Daito Manabe (JAP)
- Tom Zé, com mapping do Museu Nacional (RJ)
22/1/21 – 20h
- Uyra Sodoma
- HEXORCISMOS AKA Moisés Horta Valenzuela (MEX)
- Dillon Bastan (EUA)
- Tornike Margvelashvili AKA Mess Montage (GEO)
- Renato Vallone
- Carlos do Complexo
- Novíssimo Edgar
23/1/21 – 20h
- Hyewon Suk (COR)
- Genesis Victoria (CHI)
- Bianca Turner
- Ana Frango Elétrico + Fernanda Massotti
- Cashu & Mari Herzer
- L_cio (SP)
24/1/21  – 17h
- Ryoji Ikeda (JAP)

 

 

A cronologia de um festival em tempos possíveis e impossíveis

Por Batman Zavareze

16 de janeiro de 2020

A cultura e as artes do Brasil são atacadas, perseguidas pelo novo Governo Federal do Brasil. Em discurso, o secretário nacional da Cultura, Roberto Alvim, repete expressões do ministro nazista Joseph Goebbels.

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06 de março de 2020

Sentado num bar do Largo do Machado, tradicional bairro da antiga capital do Rio de Janeiro, onde se encontra o Centro Cultural Oi Futuro, com alguns dos seus diretores, traçamos metas para o Festival Multiplicidade diante da pandemia que estava chegando. A conversa é regada por incertezas, esperanças, sonhos e crenças na ciência.

09 de março de 2020

Lockdown na cidade do Rio de Janeiro. A COVID-19 chega ao Brasil. O governo federal nega a pandemia, a ciência, a educação, o meio ambiente e a constatação de que a Terra é redonda.

13 de março de 2020

Acordo com febre, dor no corpo e uma tremenda paranoia de que peguei a COVID-19.
Fico isolado dentro de casa, isolado dentro do isolamento de meus familiares. Em março não existiam testes disponíveis na rede de saúde, pública ou privada.

01 de abril de 2020

Saio da quarentena do meu quarto escuro e descubro que as lives invadiram de forma avassaladora a rotina de nossas casas. A cidade e a economia param. O meio ambiente finalmente respira com menos poluição no ar.

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21 de julho de 2020

Lançamos no Instagram nosso filtro de Realidade Aumentada – O QUE EU QUERO AINDA NÃO TEM NOME  -, criado pelo artista Clelio de Paula.

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21 de outubro de 2020

Fazemos o pré-lançamento do Festival Multiplicidade. Realizamos a vernissage digital de nosso novo livro-experiência, “O QUE EU QUERO AINDA NÃO TEM NOME”, com tiragem limitada.
Também promovemos, nesse dia, um papo ao vivo com Filipe Cartaxo e Russo Passapusso, do BaianaSystem, sobre passado, presente e futuros, os possíveis e os impossíveis.

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21 de dezembro de 2020

Lançamento do filme-manifesto do Festival Multiplicidade: LIBERDADE É POUCO.
Anunciamos: VAI ROLAR O FESTIVAL!

Vamos fazer.

O Festival Multiplicidade 20_21⠀é um manifesto artístico e criativo. Um ensaio coletivo sobre a liberdade. Uma rede de conexões e novas narrativas poéticas. Um ato contínuo que culmina numa celebração-manifesto no dia 21/01.

Liberdade é pouco.

Quais futuros-presentes possíveis e impossíveis podemos criar?⠀

Queremos saber dos desejos, dos quereres.

Vamos fazer desses desejos a nossa grande rede de afeto e expressão.⠀⠀

Resistir para existir.

O QUE EU QUERO AINDA NÃO TEM NOME.

Vamos?

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Multiplicidade 2020 é um livro aberto entre passado e futuro

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Em outubro passado, cinco mil pessoas lotaram o Circo Voador para assistir a uma apresentação especial do BaianaSystem na abertura do Festival Multiplicidade 2019. E que show de plateia foi aquele, que recebeu o grupo com um caloroso repertório de danças, pulos, rodas de pogo, abraços e beijos, numa celebração da vida, sem que ninguém – quem? – pudesse imaginar o que estava por vir. Um ano depois, a pandemia fechou o Circo, a Lapa, a cidade, o pais, o mundo, retorceu nossa noção de tempo e suspendeu a vida por um fio. Mesmo assim, o show tem que respirar. O Multiplicidade tá on, novamente, e aperta o play da edição 2020 – álcool gel nessa mão, por favor -  com um evento on-line, hoje, a partir do Oi Futuro Flamengo, às 19h, com um bate-papo entre Batman Zavareze, curador e idealizador do festival, e Russo Passapusso mais Filipe Cartaxo, respectivamente voz e imagem do BaianaSystem, via YouTube, seguido, às 20h30m, pelo lançamento do livro sobre a edição de 2019, como um instalação artística, colaborativa, que vai ser transmitida, ao vivo, no canais digitais do evento.

- Não se faz um festival internacional no brasil, com “b” minúsculo mesmo, ao longo de 15 anos sem uma motivação visceral – diz Batman. – Entre acertos e erros, o legado do Multiplicidade é inquestionável no campo da realização e movimentação de uma cena, mas agora começa um novo ciclo, com novas mediações virtuais. Negar isso, negar essas novas narrativas de existência, seria falta de sensibilidade.

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Peça de arte, em edição limitada de 300 exemplares, o livro, sem título, usa técnicas experimentais de criação gráfica para reunir obras apresentadas na edição passada – de Rosa Magalhães, Dani Dacorso, Raul Mourão, Cabelo, Thiago TeGui e o próprio Cartaxo, sob o tema BRASIS – e, ao mesmo tempo, sinalizar mais um recomeço do festival, através do novo slogan, “O QUE EU QUERO AINDA NÃO TEM NOME”, inspirado em Clarice Lispector, cujo centenário será celebrado na programação de 2020. Na instalação, o livro – que pode ser baixado nesse link - vai ganhar uma outra dimensão, em realidade aumentada, através dos recursos de QR Code.

- Nesse momento de escassez geral, de muita dificuldade em produzir e viabilizar, olhamos para a força poética em produzir um livro, utilizando técnicas do passado e recursos sofisticados de impressão – explica Batman. – O livro olha para os BRASIS, tema de 2019, com as obras desses artistas que passaram pela nossa programação sem nenhuma preocupação documental de um catalogo, e planta uma semente para nosso futuro ao lançar um filtro de realidade aumentada na capa, sem nome algum, com o tema O QUE EU QUERO AINDA NAO TEM NOME.

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Para um festival que sempre usou a tecnologia para fazer conexões e aproximações, a novidade foi renovar o seu uso nesse momento de distanciamento e reclusão.

- No isolamento social, surgiram novas formas de comunicar e explorar experiências em plataformas que já estavam obsoletas e ou em desuso – analisa ele. – Skype, Zoom, e QR code são exemplos de recursos que foram ativados, pela necessidade de criar usando a conexão e a interatividade como forca motriz. Olho para o passado e para o futuro das tecnologias com a mesma generosidade e fetiche de encantamento para enxergar o presente.

Sobre o que o festival quer em 2020, Batman tem uma resposta múltipla.

- Falar de urgências. Remixar passado e futuro sem deixar de olhar para dentro. Abrir mais espaço para quem não está no jogo. Falar do futuro das experiências. Movimentar a cena, com um olhar de pirâmide invertida, valorizando uma massa maior, que agora vai estar no topo. Afinal, estamos num momento que urge por realizações. Não podemos ficar parados.

 


 

Ritmo e poesia embalam a reta final do Multiplicidade 2019

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Alice Ruiz, Cecília Meireles, Marta Porto, Paulo Leminski, Ariano Suassuna, Paulo Mendes Campos, Manoel de Barros, Vinícius de Moraes e Fernando Pessoa foram alguns dos autores baixados pela memória dos presentes ao ato “Leia-me”, que marcou, com suavidade, o encerramento da ocupação do Festival Multiplicidade 2019, neste domingo, no Oi Futuro Flamengo.Trechos das obras foram lidos e compartilhados em uma roda formada por artistas desta edição (Dani Dacorso, Denise Milfont, Rodrigo Penna) e público, numa circular demonstração de afeto e união, comprovando que a poesia do conhecimento é o fio condutor para a existência em um Brasil de cabeça para baixo.

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A reta final do festival teve também, na sexta passada, o ato “Estudando o dub”, uma aula musical sobre reggae, comandada pelo DJ e produtor Marcus MPC. Mixando sons (tocados em vinil) e imagens de arquivo, o líder do Digitaldubs usou a potente parede de som do coletivo para contar a evolução do militante ritmo jamaicano, dos seus primórdios nos anos 60 até às conexões com o Brasil, via funk, hip hop e MBP, muitas delas em canções que o próprio Digitaldubs lançou, em parcerias com Mr Catra, B Negão, Tom Zé e Gilberto Gil. Foi uma lição para aprender dançando.

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No sábado,a história foi outra, mas não foi muito diferente. Sinara Rubia e Veruska Delfino comandaram a aula-intervenção “Brasis”. No ato, elas falaram sobre as ações transformadoras de mulheres – como elas, que atuam na Agencia de Redes para a Juventude – em territórios periféricos e a rede de afetos gerada por tais atividades.

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Na sequencia, a contação de histórias ganhou outro ritmo, primeiro com a impactante presença dos Poetas do Vagão, coletivo nascido na Baixada Fluminense, que atua no metrô do Rio, mais especificamente no espaço entre as estações São Conrado e Jardim Oceânico. Fora dos limites de um trem em movimento, o grupo fez uma performance teatral, com DNA de hip-hop.

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O embalo combativo daquele sábado à noite foi concluído pelo coletivo Slam das Minas RJ, com um polaroide de suas batalhas de ritmo e poesia em que todxs envolvidxs saem vencendo. ”Foi uma das coisas mais potentes e escancaradas de Brasis que vi nos últimos tempos, o grito da urgência da periferia quando mistura anarquia com arte”, falou o curador Batman Zavareze, ainda no impacto das apresentações.

Fotos: Coletivo Clap

 

 

A arte em câmera lenta de Alfredo Alves e João Oliveira

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A instalação “Fala que eu te escuto” tem causado um efeito especial em quem passa pelo Oi Futuro Flamengo durante a ocupação do Festival Multiplicidade 2019. Localizada no térreo, em sintonia com a performance “Pegue – Leia – Doe”, ela traz uma série de imagens ampliadas que, num primeiro olhar, parecem perfis fotográficos até que uma leve piscadela ou qualquer outro movimento dos seus 150 personagens revela que são, na verdade, pequenos filmes em velocidade superlenta. Autores da obra – nascida a partir de registros do público feitos durante a participação do Multiplicidade no ColaboraAmérica, na Fundição Progresso, em 2018 – o fotógrafo (e percussionista) Alfredo Alves (acima) e o editor João Oliveira (abaixo) explicam que onda é essa.

Como é que surgiu esse trabalho? Quando vocês fizeram os registros no ColaboraAmérica, na Fundição Progresso, há dois anos, existia a intenção de fazer uma instalação?

Alfredo Alves – Naquela edição do Multiplicidade, a gente trabalhou muito com time lapse, transformando dias em segundos, superacelerado. E ai teve um momento em que a gente entrou numa de fazer o oposto, de desacelerar. Veio então essa ideia do Batman de capturar, durante o ColaboraAmérica, olhares, com duração entre dois e quatro segundos, e transformar num vídeo mais longo.
João Oliveira – Inicialmente, era para ser algo interno, institucional. Não havia intenção de criar algo a partir daquilo. Mas quando a gente viu a riqueza do material, pensamos em fazer algo além. A ideia inicial do Fred, inclusive, era de usar duas telas, como se as pessoas estivessem se observando, mas acabamos com uma só.
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Que técnica é aquela, que parece foto mas é filme? Algum tipo de “slow motion”?

JO – Foi um processo aparentemente simples. O Fred filmou tudo em alta resolução, em 4K. Depois, eu participei da edição, usando um slow-motion de 30% em relação ao material original. Foi uma medida que permitiu criar o efeito visto na hora, que não é o slow tradicional e fica mais parecendo uma foto. Até que a imagem se move.

AA – Foi o conceito do parado sem ser parado.
Fotos: Aicha Barat

Dani Dacorso captura memórias do passado em ‘Incorporais’

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A captura do invisível dá o tom mágico da instalação “Incorporais”, da fotógrafa e artista visual Dani Dacorso, um dos destaques do Festival Multiplicidade 2019. Nela, registros de pessoas envoltas em tecidos brancos e maquiagem fosforescente – feitos durante uma residência artística em um hotel na zona portuária do Rio de Janeiro, em 2016 – evocam a dolorosa memória daquela região, antigo mercado de escravos na cidade. Projetadas em uma tela transparente, as imagens parecem voar e dançar, como fantasmas do passado, ao som do percussionista Leo Leobons.

- É como se eu  estivesse registrando e a presença de seres invisíveis pelo  seu contorno – conta Dani – E o tambor traz uma carga ancestral

Como surgiu “Incorporais”?

Dani Dacorso – O trabalho começou numa residência artística que fiz em um hotel na praça Mauá. A  ideia inicial era fazer retratos no meu quarto. Resolvi usar luz negra, ou ultravioleta induzida, que faz com que os objetos e materiais que são brancos e fosforescentes brilhem, enquanto outros que não reagem a ela aparecem escuros. Me interessava usar os  extremos opostos  da escala tonal – preto e branco – para demarcar limites. Como se eu  estivesse registrando a presença de seres invisíveis pelo  seu contorno. Fantasmagorias, arquétipos, formas pensamento…

De que forma a percussão de Leo Leobons contribui para a instalação?

DD – Uma coisa que eu amo no Multiplicidade é a possibilidade de trabalhar com outros artistas num atravessamento de linguagens. Nesse sentido, a presença do Léo – cujo trabalho  admiro há tempos – potencializa o trabalho, não só pelo aspecto  cênico da presença dele no palco com o tambor, que dá à apresentação um caráter performático, mas também pela condução, um caminho que a música cria para as imagens. E o tambor traz uma carga ancestral, sem a gente precisar ficar explicando muito;  definindo quem é o que.

Qual o significado de representar o invisível?

DD – Como diz Anne Cauquelin -  tirei o nome do trabalho de um livro dela, chamado  “Frequentar os incorporais” -, na arte contemporânea estamos sempre caçando o invisível, tentando dar forma ao que não tem. Sobre o invisível , podemos chamá-lo talvez de…inconsciente? Tem o que a gente chama de espiritual, mas também passa por coisas que a gente sente, por relações e também tem o invisível das pessoas fotografadas, que é desvelado no gesto. Nesse sentido, “Incorporais” é um  trabalho  colaborativo, feito de representações múltiplas.