O Xingu em mim, Por Batman Zavareze

Diários do Xingu e uma longa reflexão no caminho de volta para casa

Fotos de Batman Zavareze, Gringo Cardia e Marcia Farias

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Sol e lua

Ainda com a pele vermelha de urucum misturada com a poeira do barro fino que entra e não sai da gente, começo as 36 horas da longa jornada de volta para casa.

A ardência na pele me faz lembrar o tempo todo as indescritíveis visões do sol: exibicionista, redondo e quente, nascendo e se pondo no horizonte.

Quando o sol recuava, a lua no lado oposto, nascia, igualmente gigante e amarelada.

Uma beleza sem dimensão, em contraponto a uma natureza bruta e árida, tudo ao mesmo tempo.

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Onças

Sempre cercado por onças, tucanos, maritacas, antas, tatus, veados, piranhas e jacarés que algumas vezes se exibiam para nós, com câmeras na mão desesperados por uma foto, outras vezes desapareciam quando piscávamos os olhos, ariscos que só.

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Internet

Quando o gerador ligava por volta das 7 da noite por eternos e imaginários poucos minutos, era hora de corrermos para o posto médico, onde também coabitava a “lan House” da aldeia. Hora de ver a vida pelo WhatsApp, único meio de comunicação que funcionava para escutar notícias do mundo “civilizado”. Hora de se inteirar dos últimos escândalos do Brasil “oficial” e matar as saudades.

À noite, após o momento internet, um frio rasgante e incompreensível depois de um dia insuportavelmente quente que só uma fogueira ou as cobertas aqueciam o nosso sono.

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O convite

Esta viagem com todos estes atributos exóticos só existiu porque teve um convite diferenciado de um rapaz especial, o Takumã Kuikuro, direcionado para o inglês mais carioca que conheço, Paul Heritage. Assim, iniciamos uma nova relação de trocas entre estes dois mundos, urbano e indígena, que foi muito além do consumo de artesanatos ou o simples turismo em uma aldeia.

Faz dois anos que me emocionei com a proposta que estava sendo aplicada num fundo inglês através da People’s Palace Projects em parceria com o Festival Multiplicidade e outras instituições cariocas. Mesmo envolvido e ciente desde o início, não dimensionava o impacto que me causaria.

O projeto foi crescendo e acabou por trazer numa primeira viagem ao Xingu em maio de 2017 uma equipe do canal BBC.

Os ingleses vieram com tecnologias avançadas da Factum Foundation e usaram ferramentas como drones e scanners 3D em imagens e sons.

Posteriormente, de 26 de agosto a 15 de setembro do mesmo ano, entraram além do Festival Multiplicidade, o Observatório de Favelas (Jailson da Silva), a Spetaculu (Gringo Cardia), Redes da Juventude (Marcus Faustini) e os artistas residentes ligados a cada uma destas instituições.

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Takumã

Mas Takumã defendia uma ambição simbólica ainda maior; começar uma série de residências artísticas ampliadas onde os conhecimentos dos povos do Xingu, especialmente os Kuikuros, abrissem novas conexões através das artes para o mundo.

Sem imposições dos homens “brancos” para a aldeia, muito pelo contrário, a intenção é fazer um diálogo cuidadoso e construído coletivamente para enxergar as poéticas e pesquisas que sejam feitas em mão dupla.

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O temor

Existe na aldeia dos Kuikuros o temor do uso excessivo de celular, internet, tvs, roupas de grife e motocicletas, itens presentes na vida deles igual está na nossa. O que pode parecer perigoso para alguns se transforma numa provocação pela reflexão nos indígenas mais sábios que lembram da época que introduziram de forma radical o anzol, o facão, a panela de alumínio no cotidiano. Isso gerou uma enorme mudança de hábitos.

Cada ferramenta nova, tecnologia ou impactos de nosso tempo quando implementadas sem o pensamento crítico contam com uma certa irreversibilidade em nossas vidas. Uma das formas de se manter sempre acesa a chama da identidade da aldeia dos Kuikuros é definitivamente a língua, como os líderes me disseram.

Assim, mesmo que o conceito de um povo intacto seja uma perspectiva romântica, manter a língua preservada é de uma força inestimável.

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O mundo

Os Kuikuros tomaram o mundo. Da sua aldeia saiu um cineasta formado na Escola Darcy Ribeiro do Rio de Janeiro e premiado nos mais importantes festivais do planeta, o Takumã. Além disso, outras pessoas de seu povo ingressaram em renomadas universidades do Rio e de São Paulo: são professores, radialistas, líderes e políticos, que em paralelo não abandonam cargos ancestrais e hierárquicos na aldeia como caciques, pajés e guerreiros.

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Eu

Eu já havia estado em aldeias no início dos anos 2000 como fotógrafo documentarista quando fui a algumas tribos da Amazônia (inclusive conheci os famosos Xavantes) mas estar com os Kuikuros e pescar no Rio Xingu em pleno 2017 foi a realização de um antigo sonho.

Viajei com a ansiedade e a vontade de investigar como se fosse a minha primeira vez numa aldeia.

Partilhei momentos especiais com os nove artistas residentes  selecionados, com a equipe de produção da PPP e com o “cacique” inglês Paul Heritage. Tive também profundas conversas com o artista Marcus Faustini e o intelectual Jailson de Souza, meus companheiros de caminhadas e mergulhos diários.

Eu saio desta experiência maior, com a paixão e a generosidade de um povoado que te oferece tudo antes mesmo de saber o que eu tinha para oferecer em troca.

Valorizo ainda mais questões básicas de minha vida diante de tanta precariedade na infraestrutura e tamanha sabedoria dos Kuikuros para contornar as adversidades com criatividade.

Esta viagem, real e utópica, mexeu com a minha mente, minha alma, meu tempo, minhas prioridades, minha imaginação e minha saúde.

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O Festival Multiplicidade

De 17 a 22 de outubro, 9 Kuikuros estarão no Festival Multiplicidade completando um ciclo, vivendo a residência artística agora ao revés, no Rio de Janeiro. A CasaRio, em Botafogo, será sua Oca na cidade maravilhosa.

Durante uma semana eles irão visitar o Pão de Açúcar, a praia de Copacabana, o Cristo Redentor, o Festival do Rio (este foi um pedido de todos), a favela da Maré e se apresentarão durante 3 dias no Oi Futuro com palestras, debates, oficinas e performances de suas culturas.

Fecharemos uma primeira etapa e a flecha lançada das residências artísticas Kuikuro da nação Xingu estarão abertas agora para o mundo, com uma Oca sede construída e trazendo práticas, metodologias, processos e criações.

Viva o Xingu!!!!

Festival Multiplicidade 2025, de 07 de outubro a 11 de novembro de 2017.

O Xingu em mim.

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Como um ilusionista, Alex Augier comanda a revoada sensorial de “_nybble_”

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Por Carlos Albuquerque.

Foi uma ilusão bem poderosa. Postado no centro do palco do Oi Futuro Flamengo, em frente a seu equipamento, cercado por quatro telas freneticamente iluminadas, o artista francês Alex Augier pareceu se agigantar como o Dr. Manhattan, fantástico personagem da cultuada HQ “Watchmen”, de Alan Moore. Por um breve período – cerca de meia hora terrestre – ele brilhou no frio do espaço, separando e reagrupando partículas sonoras e visuais durante a sensorial experiência que é “_nybble_” (o termo significa a metade de um byte). Os pufes do local amaciaram a onda.
“Nunca pensei na idéia de parecer um mágico, mas sem dúvida há um pouco de ilusionismo em esconder parte do meu equipamento durante a performance”, me disse ele, um pouco antes da apresentação.
Mas não foram coelhos o que ele trouxe na cartola. Foram pássaros – ou melhor, a revoada deles – que serviram de inspiração para as imagens, por vezes frenéticas, por vezes plácidas, que eram projetadas, randomicamente, nos telões. Como o coletivo 1024 Architecture, também francês, Augier usa essas lâminas como se fossem portais para outras dimensões. Assim, sincronizados com os sons quadrifônicos que ele produzia em um envenenado sintetizador modular – verdadeiras rajadas eletrônicas, com subgraves em fúria – os desenhos se moldavam em formas variadas, ora parecendo partículas de um átomo, ora pontos de uma galáxia distante, ora qualquer coisa além da imaginação.
Em determinado momento do transe, sons e imagens, formas e ambiente, tudo o que era gerado/moldado através da caixa mágica de Augier parecia uma coisa só, “um objeto orgânico quase palpável”, nas palavras dele. Mas uma brisa de silêncio logo interrompeu a viagem, sinalizando o fim do espetáculo. Augier saiu da caixa, não mais parecendo um gigante com poderes sobrenaturais, e agradeceu a todos pela presença. Alheios aos aplausos, meus neurônios, super-estimulados, ficaram pedindo mais e mais. “_nybble_” me deu asas, mas metade de um byte – e de uma hora – parece ter sido pouco.


Fotos: Elisa Mendes

Abrindo a caixa da Manifestação Pacífica

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Instalação Manifestação Pacífica – Festival Multiplicidade 2025 – Oi Futuro Flamengo – Rio de Janeiro – Brasil

 Instruções de segurança:

Cuidado! Risco de choque político ao assistir

Contém:

1 frase de Simone Weil

1 imagem, em loop, de Fernando Collor, citando Simone Weil.

Santinhos de Michael Temer, Alexandre de Moraes, Aécio Neves, Ronaldo Caiado, Ricardo Barros, Gilmar Mendes,Benjamin Steinbruch e Mendonssa, perdão, Mendonça Filho.

1 palanque vazio

1 faixa presidencial sem uso

1 contrato de trabalho não assinado

1 figurante imprevisível

2 caixas de som, reproduzindo votos de “sim”, “não” e algumas abstenções

1 painel com o corpo de um presidente para inserir o rosto

1 imagem, em loop,de uma figura masculina pixelada com traje presidencial

1 provocação

1 subversão

1 reflexão (não incluída)

Obrigado por consumir esse produto.

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MANIFESTAÇÃO PACÍFICA from Festival Multiplicidade on Vimeo.

 

 

Entre o silêncio e o barulho, os ecos de uma memorável noite de estreia do Multiplicidade 2017

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Por Carlos Albuquerque

Quatro minutos e trinta e três segundos. Foi o tempo em que o Oi Futuro Flamengo pareceu suspenso no ar, como uma cena perdida de “Além da imaginação”, durante a estréia do Multiplicidade, na noite de sábado passado. Fora uma moça de óculos que resmungava de sua pipoca sem sal, todos os presentes ao debate sobre barulho e John Cage (1912-1992)- conduzido pelo curador Batman Zavareze e pela editora Isabel Diegues – se mantiveram, respeitosamente, em silêncio. Alguns giraram o pescoço, outros olharam o relógio, mas nenhum outro suspiro foi ouvido. No centro, de pé no hall do prédio, quase imóvel, segurando uma flauta longe da boca, o convidado Marcelo Brissac interpretava a anti-música de Cage – compositor norte-americano de vanguarda – como pedia o seu criador: em silêncio.

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Acompanhada apenas pelos sons vindos da Rua Dois de Dezembro, onde na véspera tinha acontecido um ruidoso protesto contra a censura,“4’33” foi a trilha-sonora perfeita para a abertura de um evento instigado por tempos de muita gritaria e de ruídos propositais na comunicação. Estudioso da obra de Cage, um desafiador das convenções musicais, Brissac  contextualizou o   trabalho do artista, driblou boas provocações da platéia (“Se os músicos ficarem em silêncio, eles não vão ficar desempregados?”, perguntou alguém) e lembrou, com precisão, de uma de suas frases emblemáticas (“Quando ouvimos Beethoven e Mozart, vemos que eles sempre parecem os mesmos, mas quando ouvimos o som do trafego, ele sempre vai ser diferente” ).

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De fato, o tráfego que aconteceu no local em seguida foi especialmente diferente.  A movimentação dos integrantes da Quasi-orquestra – formada por integrantes de instituições como Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal, Orquestra Sinfônica Brasileira, Orquestra Sinfônica da UFRJ e Orquestra Sinfônica Nacional – se misturou com o barulho do público, que chegava para lotar o local. Posicionados e regidos pelo maestro Rafael Barros de Castro, os músicos iniciaram a apresentação com outra obra provocadora: “A despedida”, sinfonia do compositor austríaco Joseph Hadyn.

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Composta em 1772 como um protesto de Hadyn e de outros músicos contra as péssimas condições de trabalho oferecidas pelo príncipe húngaro Nikolaus Esterhazy , a atualíssima peça teve seu caráter performático – ao longo de sua duração, os músicos costumam se retirar em silencioso protesto – radicalmente atualizado no Multiplicidade Em vez de se ausentarem, os integrantes da Quasi-orquestra – que igualmente sofrem com maus empregadores  - se espalharam pelos oito andares do prédio. Em duplas ou sozinhos, foram ocupando marcações previamente escolhidas – entre os degraus, ao lado dos elevadores, no meio do café, em frente a uma obra – para uma avançada e arriscada desconstrução  da “Sinfonia nº 40”, de Mozart.

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Plugado em cada um dos músicos, que usavam pontos eletrônicos, o maestro regeu a obra no térreo, enquanto o som ia sendo executado,  verticalmente, pelo ambiente. As inúmeras possibilidades de apreciação dessa experiência – testadas pelo público em romarias para cima e para baixo – culminavam com uma instalação no teatro, no último andar,  No local, sem a presença de qualquer músico, doze caixas espalhadas registravam os sons produzidos em cada marcação, gerando um surround de presenças e ausências, numa  curiosa provocação sensorial: o todo sendo ouvido, apesar das barreiras.

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Depois, o tráfego sonoro foi o da volta dos músicos ao posicionamento original, no térreo. Novamente acústicos e desplugados, eles executaram a sempre assombrosa “Carmina burana”, muitos ali repetindo a célebre apresentação do mesmo tema nos “Concertos pela Democracia”, no OcupaMinc, no Palácio Capanema, no Centro do Rio, em 2016, quando a audiência colaborou com um arrepiante coro de “Fora Temer”.

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No Multiplicidade, o coro se repetiu , para êxtase geral, com o maestro virado para a plateia, quase como uma estrela do rock, regendo, emocionado, os pulmões em fúria.  Foi o catártico barulho final de uma noite iniciada, sugestivamente, com quatro minutos de silêncio.

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A repressão e a arte nos extremos elásticos do barulho

Obra de Gabriela Mureb

Obra de Gabriela Mureb

Texto: Carlos Albuquerque

Iara tem cinco meses de idade.  Diariamente, por volta de 5h30m, ela acorda e fica “falando” sozinha no berço. Ainda incapaz de formular palavras, treina o volume e o alcance da sua pequena voz em uma série de estranhos e divertidos ruídos, que podem ser apreciados do quarto ao lado.  Sua performance dura cerca de meia hora, até que se cansa da brincadeira e começa a elevar o tom. Na fase final dos seus concertos matinais, grita a plenos pulmões(zinhos), buscando despertar os pais . Quando um dos dois se aproxima do berço, ela sorri um sorriso sem dentes enquanto é erguida, vitoriosa, rumo à primeira mamada do dia. Iara já sabe – ou só sabe – como é importante fazer barulho. Em breve, vai descobrir como conviver com ele, como se proteger dele e, talvez, como perceber os inúmeros sinais dentro dele.

Como por exemplo…

Durante os inflamados protestos que sacudiram a cidade de Ferguson, nos EUA, em 2014 por causa da morte de um adolescente negro, desarmado, por um militar branco, a polícia apresentou suas armas. Além do usual arsenal de “contenção” – escudos transparentes, cassetetes, capacetes reluzentes, bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha etc -, as autoridades usaram contra os manifestantes um canhão sonoro, também conhecido como LRAD (de Long Range Acoustic Device). No formato de uma caixa de som, o aparelho é capaz de emitir ruídos de até 160 decibéis – o limite humano é de 120 decibéis -, num alcance de oito quilômetros de distância, causando desorientações, náuseas, vômitos e perda parcial da audição em quem estiver no seu caminho.

Esse barulho de repressão em massa já foi tema de diversas publicações, entre elas o livro “Sonic warfare: sound, affec t and the ecology of fear”, escrito pelo filósofo, músico, produtor e DJ escocês Steve Goodman. Editado pelo renomado MIT (Massachusetts Institute of Technology), o livro mostra como armas sônicas têm sido usadas ao longo do tempo, seja como ferramenta para afastar pássaros de pistas de aeroportos ou como defesa contra  ataques de piratas a navios comerciais. Goodman menciona também a tortura de prisioneiros com heavy metal em alto volume, feita pelo exército norte-americano durante a invasão do Iraque nos anos 2000. Mas a utilização do LRAD nas ruas, com a determinação de manter tudo em seu lugar, tem causado controvérsia – a tecnologia desse aparelho ainda é cercada de segredos – e gerado uma intensa discussão sobre sua legalidade.

Ironicamente, Goodman, cujo nome artístico é Kode 9, também usa  o barulho, em particular o poder das freqüências graves, não para afastar as pessoas e sim para aproximá-las na pista de dança e fora dela. Além de DJ, Kode 9 é dono da aclamada gravadora independente Hyperdub, casa de artistas avançados como Lee Gamble, Ikonika, Burial, Laurel Halo e Zomby. Um dos nomes mais interessantes do cast da Hyperdub é a produtora e artista visual Fatima Al Qadiri. Nascida no Senegal, criada no Kuwait e radicada nos EUA, ela lançou, ano passado, o provocativo álbum “Brute”, no qual gélidos sintetizadores e profundas linhas de baixo convivem com samples de sirenes, helicópteros, gritos de multidão, diálogos entre policiais (uma das faixas tem o nome de “10-34”, código militar para tumulto) e, novamente ele, o canhão LRAD (reproduzido na impactante faixa de abertura, “Endzone”).  Inspirado pelos protestos de Ferguson, Baltimore e Nova York, “Brute” consegue um feito inusitado: fazer música de protesto de forma totalmente instrumental.

Servindo tanto à repressão como à arte, o LRAD simboliza bem os extremos elásticos do barulho, que pode nos ensurdecer e paralisar, assim como pode nos inspirar e movimentar. Impreciso e ambíguo, intrusivo e indesejado, purificador e libertador, o barulho não tem uma face única. Há o barulho de guitarras, o barulho de bombas, o barulho da celebração, o barulho da repressão, o barulho das panelas e o barulho quase imperceptível dos cliques. A lista é estrondosamente longa. Em 2017, ela parece se estender, perigosamente, por zonas obscuras, de muito ruído e pouca escuta, de gritos por censura às artes e berros, coléricos, contra tudo o que é diferente do “normal”.

instalação de Lenora de Barros

EXPERIENZA LIVECINEMA #3, de Lenora de Barros e Raul Morão

Mais uma vez, a música serve de contraponto a tudo isso. Modulando lições ancestrais que vêm de Luigi Russolo, Edgar Varèse, John Cage, Stockhausen  Jimi Hendrix e Sonic Youth, entre outros, o barulho segue desmontando o quadrado do pop. Lá está ele, cimentando as novas obras de artistas como Mogwai, Bemônio, Lê Almeida, Narcosatanicos, Antwood, Ben Frost,  etc. Seu manto da invisibilidade, porém, parece ter os dias contados, graças aos avanços da tecnologia. Com a ajuda de ferramentas de mapping e de realidade aumentada, o artista Zach Liberman construiu um aplicativo com o qual consegue “visualizar” os barulhos que estão no ar.  Com o celular nas mãos, ele mira nos ruídos que produz aleatoriamente – Shh! Eee! Ohm! Click! Poin! – e enxerga todos eles  transformados em formas diversas.

O projeto de Liberman ainda é experimental, mas abre as portas da imaginação de um novo mundo.  Como seria se víssemos a distorção saindo da guitarra de Hendrix em Monterrey, 1967? Que rastros o LARD deixaria no ar antes de atingir nossos tímpanos? Que formas assustadoras teriam os grunhidos de milícias fascistas contra mostras de arte provocadoras? Que desenho teria a batucada de uma escola de samba? Qual sinal de fumaça sairia das caixas de um sound system jamaicano?

E, por fim, será que eu poderia soprar as bolhas de barulho saídas da boquinha banguela de Iara todas as manhãs?

 

Estreia da série Multiplicidade no Canal Brasil

O Festival Multiplicidade chegou à sua 12ª edição com uma surpresa daquelas: a estreia da série Multiplicidade no Canal Brasil. Claro que essa conquista merecia uma comemoração!

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No último dia 07 de setembro, um feriado ensolarado de 2025, a galera se reuniu para um Picnic cheio de atrações no Quiosque Zeronove, Aterro do Flamengo.

A chuva até ameaçou, mas não deu nem sinal durante o dia. O Satta começou sua performance sonora às 11h, e quem passava pelo Aterro foi se aproximando pra ouvir uma musiquinha e aproveitar as esteiras espalhadas pelo chão – estrategicamente posicionadas debaixo das sombras dos coqueiros. Ao mesmo tempo, a Regina Café comandava uma Oficina de Percussão em que todo mundo podia participar. Era só chegar, prestar atenção nas dicas e tocar junto com o pessoal.

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Às 13h, o Negalê – parceiro de longa data do Multi – fez um número espetacular com o violinista William Doyle. Enquanto isso, o artista Franklin Cassaro exibia os seus Atos Escultóricos, uma série com objetos infláveis que parecem estar vivos! A interação com a criançada deixou tudo mais divertido.

Mais tarde o Marcelinho da Lua assumiu o som enquanto a Camila Rocha conduzia a Oficina de Bambolês. Uma galera se arriscou com a Camila, mas as crianças dominaram a cena de novo! Tudo era motivo de diversão e gargalhadas. O Dj da Lua passou o bastão para o SIRI que prendeu a atenção do público com os seus instrumentos e sons inusitados.

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Em seguida, os primeiros batuques do grupo Os Ritmistas atraiu a galera para a parte de trás do Quiosque Zeronove. A batida africana conquistou todo mundo de cara e garantiu muitos aplausos aos rapazes no fim da apresentação. Os Ritmistas ainda tocavam quando a galera da Fanfarra Black Clube entrou com o seu batuque. As duas bandas se encontraram e o Multiplicidade virou um grande Carnaval em pleno Aterro do Flamengo! A festa já estava armada e os músicos convidaram a galera para um cortejo pelas ruas do Flamengo até o Oi Futuro.

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Ao mesmo tempo, o Oi Futuro Flamengo já abria as portas para receber a estreia do Multiplicidade no Canal Brasil. O Calbuque fez as honras da casa cuidando do som até a galera chegar. O alemão Heikki Eiden, o americano Chief Boima (da Kondi Band) e o brasileiro Caio Fazolin também fizeram suas performances na área externa do Oi Futuro.

Enfim chegou a hora! Uma projeção na parede da área externa mostrava que Multiplicidade no Canal Brasil ia começar! A séria conta com dez episódios, mas somente três foram exibidos em primeira mão para os presentes. Os convidados e amigos partilharam essa alegria com a gente e comemoraram junto! Depois, todos foram convidados para um debate sobre o tema “MULTIPLICIDADE, além de uma Série de TV” com Ronaldo Lemos, Belisário Franca, Marcello Dantas e Bia Lessa com mediação de Bebeto Abrantes.

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Pra fechar esse dia super especial, tivemos as performances do francês Chassol e do Marcelo Yuka em parceria com Daniela Dacorso e Apolo Nove no teatro do Oi Futuro Flamengo. Lembrando que a Exposição Errar continua disponível no mesmo local até o dia 11 de setembro.

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ACERTO _Visita com Hermeto Pascoal e Pablo Ribeiro

Amanhã, sábado (03/09), das 14h às 15h30, o Festival Multiplicidade te convida para fazer uma visita e bater um papo com os artistas Hermeto Pascoal e Pablo Ribeiro nas instalações da exposição ERRAR no Oi Futuro Flamengo – Rua Dois de Dezembro, 63.

• Teaser da instalação Acerto de Hermeto Pascoal e Pablo Ribeiro

“Assim é Hermeto: uma folha de papel, branca, sempre pronta para acertos não premeditados.
É água que brota da terra sem parar, por gostar de brotar.
Hermeto respira a música que inspira a imagem.
ACERTO traz esse movimento espontâneo evocado através de som e projeção.
Com a reconstrução audiovisual de Pablo Ribeiro, são descobertas novas possibilidades musicais dentro da expressão inicial e livre.
É Hermeto em plena simbiose com ele mesmo e com o universo.
Então toquem e cantem minha gente, amem-se e se abracem até o dia amanhecer.”

ACERTO é uma obra de Hermeto Pascoal (música) e Pablo Ribeiro (edição e concepção visual)

***Não será uma performance.

ACERTO_ Hermeto Pascoal e Pablo Ribeiro

Assim é Hermeto: uma folha de papel, branca, sempre pronta para acertos não premeditados.
É água que brota da terra sem parar, por gostar de brotar.
Hermeto respira a música que inspira a imagem.
ACERTO traz esse movimento espontâneo evocado através de som e projeção.
Com a reconstrução audiovisual de Pablo Ribeiro, são descobertas novas possibilidades musicais dentro da expressão inicial e livre.
É Hermeto em plena simbiose com ele mesmo e com o universo.

“Então toquem e cantem minha gente, amem-se e se abracem até o dia amanhecer.”

Acerto, 2016, instalação audiovisual de Hermeto Pascoal e Pablo Ribeiro.
Expo_Errar
Festival Multiplicidade 2025
www.multiplicidade.com

É oficial: voltamos para o [Oi] Futuro de 2025

O Festival Multiplicidade, em sua 12ª edição, pré-estreou no Teatro Oi Futuro Flamengo dia 18 de julho, uma segunda-feira de 2025. A casa lotou, em clima de reencontro. Nas instalações e performances, a expressão da eterna curiosidade diante da luz, do som, da tecnologia e suas possibilidades combinatórias. E já que o errar era permitido, o imprevisto é bem-vindo como caminho para se recriar e inovar.

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A obra do artista francês Joanie Lemercier era uma das que compunham a Exposição_ERRAR. Ao misturar o traçado de canetinhas pilot com mapping e projeção, provocou nos visitantes a ilusão de ótica, a sensação de volume, profundidade e pertencimento, convidando-os a imergir em uma de suas experiências pessoais mais inusitadas: quando o vulcão EYJAFJALLAJÖKULL entrou em erupção. Juliette Bibasse, assumida “produtora digital” de Juanie, foi quem viabilizou os detalhes para que a ideia tomasse forma. Ela trabalha praticamente como uma co-autora, seguindo um modelo de negócio mais colaborativo, quem sabe uma tendência para o futuro.

fala jonie e juliette - maison - nestrea-35

Quando chegaram ao Rio, dia 16 de julho, ambos compartilharam seus processos criativos no bate-papo que rolou na biblioteca da Maison de France, em plena Avenida Presidente Antônio Carlos, coração de uma cidade pré-olímpica. O conforto do espaço, preenchido por Design, deixou a tarde ainda mais propícia para uma troca de informações em tom intimista. Entre os temas discutidos, está a necessidade de autossuficiência do artista digital e a então capacidade de potencializar recursos e viabilizar mais projetos. Eles também falaram do quanto as projeções estarão mais presentes no dia a dia das pessoas daqui para frente. Como diz Joanie, “chamar atenção em ambientes públicos será cada vez mais desafiador”.

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E falando em algo desafiador, a arte de Matheus Leston fez tremer um dos espaços do Oi Futuro naquela segunda-feira. Em sua performance MENOS, trabalhou em cima do erro, traduzindo códigos sonoros em luz colorida. Enquanto isso, em outro ambiente, a penumbra, o silêncio e a névoa de Tomás Ribas proporcionavam, combinadas com precisão, um ambiente “fantasmagórico” em sua instalação JARDIM DO JOAQUIM. Ele criou uma parede que podíamos atravessar; uma mistura de sensações, da cautela à felicidade, do medo à paz, da ilusão ao “tem algo errado aqui, deixa eu descobrir”.

E no Teatro, aquela sensação gostosa de deitar de novo nos almofadas vermelhos. Dessa vez, para assistir ao CONCERTO DE LAN HOUSE, cujo maestro é Giuliano Obici. Durante sua performance, a reflexão iminente: como se vive em um mundo onde tudo é tela?

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O trio DEDO fechou a noite de pré-estreia, levando a plateia a se desconectar, meditar, para, quem sabe, transver o mundo.

Que venha o Festival!