Multiplicidade entrevista: HOL

Na próxima quinta, a partir das 20h, é dia de reencontrar o artista HOL – depois de 4 anos – no teatro do Oi Futuro Flamengo. Ele já compõe música desde criança e seu primeiro instrumento foi construído no auge dos seus 10 anos (usando apenas uma colher e um elático). Mais tarde, prestou vestibular para engenharia achando que a carreira o ajudaria a construir mais sons. Também tentou comunicação e design, mas no fundo o que ele queria era fazer arte. Que sorte a nossa! Antes da performance, como já está virando uma tradição por aqui, trocamos uma ideia com esse verdadeiro prodígio. Falamos sobre o processo criativo, seu novo projeto e até o que ele anda ouvindo por aí. Vem conferir!

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Blog Multiplicidade: Como você definiria seu mais recente projeto, o Synap.sys, e o que público pode esperar dessa apresentação?

HOL: É uma performance sobre memória dividida em 3 partes: assimilação da informação do mundo exterior, retenção destas informações e uso delas na forma de lembranças. Uso basicamente imagens abstratas e sons sintéticos e tento simbolizar elementos do mundo “real” através de associações usando os parâmetros fundamentais de cada área como ritmo, escala, timbre, afinação na parte sonora e cor, forma, movimento nas imagens. Cada elemento faz parte da narrativa e foi colocado lá com uma função específica, ou seja, nada cumpre apenas a função estética. O uso de um instrumento criado especificamente para a performance contribui para esta integração, tendo características próprias ligadas ao tema proposto. É importante falar que cada instrumento que construo é usado somente na performance para a qual foi criado. isso faz com que esta unidade conceitual seja sempre mantida. Nesta o instrumento se assemelha a uma cabeça ligada a eletrodos, e, ao mesmo tempo, a sintetizadores modulares. Além deste instrumento, foi criado também uma interface com 5 canetas laser que têm seu acionamento e posição controlados pelo meu software. assim sincronizo perfeitamente a interação som/imagem/luz de acordo com minhas necessidades. Os lasers vão acrescentar também uma tridimensionalidade ao trabalho, expandindo a tela convencional e ocupando o espaço do teatro por volumes de luz criados pela reflexão dos lasers através de vários espelhos.

BM: E quais são as principais características do software que você usa na composição do seu trabalho?

HOL: Atualmente minha pesquisa envolve criação de novos instrumentos tanto em software quanto em hardware. Na parte de software, sempre crio do zero um programa que vai tocar a performance exatamente de acordo com minhas necessidades. não uso softwares prontos como os normalmente usados por VJs como resolume, modul8… Uso o Max/Msp que me permite construir um programa totalmente personalizado, a partir de uma programação desenvolvida de acordo com as necessidades específicas de cada performance. É a criação de um software composto de várias partes que controla som e imagem em tempo real, de acordo com o que idealizei inicialmente, mesmo antes de chegar no computador. Inclusive, este é uma parte importante no meu trabalho: antes de começar a produzir penso no conceito que será desenvolvido na performance e crio todas as relações entre os elementos sonoros e visuais com o tema que vou tratar. só depois que vou para o computador e começar a fazer a programação.

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BM: Se tivesse que traçar um paralelo entre sua carreira artística e os avanços tecnológicos, de que maneira elas se integram e estimulam que você crie?

HOL: Sempre uso a tecnologia como um ferramenta e meus avanços acontecem tanto na parte técnica / tecnológica quanto na conceitual. Na parte técnica, acompanho as novidades e uso o que tiver a ver com a performance que estou criando. Mas nunca coloco a tecnologia como protagonista no meu trabalho, apenas uso o digital e seus constantes desdobramentos para atingir os meus objetivos conceituais. É como um pintor que domina o pincel – que também é uma tecnologia. Não adianta ter uma ótima técnica se não tem nada a dizer. Na parte conceitual percebo também um desenvolvimento de uma linguagem no meu trabalho, onde os elementos audiovisuais cumprem uma função simbólica e narrativa. a cada nova composição sinto que consigo ir além e criar novas formas de conexão, expandindo possibilidades. Sobre minha carreira, desde que comecei como VJ, a tecnologia foi fundamental. No início por dar a possibilidade de se mixar imagens de vídeo em tempo real. Depois fui me interessando pela personalização – em software e hardware – das ferramentas que uso. Como trabalho em algumas áreas distintas, a tecnologia me permitiu ampliar as possibilidades e possibilitou me expressar através de performances, instalações audiovisuais interativas, construção de instrumentos, VJing, video mapping, etc. Entre as tecnologias que uso estão desde as básicas como laptop, projetor, até as específicas como arduino e softwares como Max/msp, vvvv, processing.

BM: Como você enxerga a cena da arte digital brasileira e os festivais em relação aos outros países?

HOL: A qualidade dos artistas brasileiros está no mesmo nível do que se faz no resto do mundo. Depois da internet as fronteiras de conhecimento caíram e se pode ter informação sobre tudo que está sendo feito no mundo praticamente sem delay. A partir daí o que vale é a criatividade, que o brasileiro tem de sobra. Talvez em termos que quantidade, aqui tenha menos gente produzindo este tipo de arte, mas a qualidade não deixa nada a desejar. No entanto, por aqui os lugares para se apresentar o trabalho são bem mais escassos que na Europa. São pouquíssimos festivais que tem uma continuidade e isso afeta muito os artistas. Além do fato de que a arte digital já acontece há mais tempo na Europa – e por isso é natural haver um número maior de espaços para apresentação – parece que no Brasil o analógico está bem mais enraizado na cultura. Fico pensando se este fator não pesa, pois é muito desproporcional a quantidade de evento que acontecem fora do Brasil com o que temos por aqui, sendo que a arte digital já existe há tempo suficiente para chegar no país. Em relação a performances audiovisuais, são raros os festivais e poucos que conseguem se manter ativos ao longo dos anos. Neste caso, o Multiplicidade é um dos pouquíssimos eventos que se mantém ativos e com uma programação de alto nível!

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BM: E pra finalizar, quais são seus artistas favoritos e o que não pode faltar no seu player?

HOL: Sempre falo que minha maior influência vem de muito tempo atrás. São os pintores russos Malevich e Kandinsky. Com eles aprendi a entender a força dos elementos fundamentais da imagem e do som e as ligações possíveis entre eles. Toda a linguagem que desenvolvo no HOL tem como fonte o trabalho e os ensinamentos destes 2 artistas do começo do século XX. Atualmente gosto de artistas de áreas diversas mas que me inspiram de diferentes formas como Alva Noto, Olafur Eliasson, Murcof, Apparat. Em relação à música costumo colocar o nome de um artista que gosto e procurar semelhantes, como nas estações do Grooveshark.

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Anotou as dicas? Agora é só se programar, garantir seu ingresso, confirmar a sua presença e aproveitar a performance do HOL essa semana. A gente se encontra lá!

Ah! E quem quiser participar do ensaio aberto e bater um papo com o HOL antes da sua perfomance, às 17h, é só enviar Nome, RG, e-mail e telefone para info@multiplicidade.com. As vagas são limitadas e estão sujeitas à lotação do Teatro Oi Futuro Flamengo.

 

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