Retrospectiva Multiplicidade 2011: Kynoramas Glauber Machine

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No ano em que foram lembrados os 30 anos de ausência do cineasta Glauber Rocha, a Semana Especial do Festival Multiplicidade 2011 dedicou seu último dia para celebrar a vida e a obra desse diretor que sempre buscou criar uma linguagem audiovisual libertária e autoral genuinamente brasileira, contribuindo para a criação do movimento conhecido como Cinema Novo.

Glauber foi responsável por um novo pensamento no cinema brasileiro, com o qual buscava romper com os padrões impostos pela indústria cinematográfica norte-americana e gerar uma identidade própria. Aproximando-se mais do cinema cubano, esse movimento buscava retratar com mais realidade a vida e costumes do povo brasileiro.

Sua vida quase ficcional rendeu uma biografia escrita por Nelson Motta, amigo pessoal que se propôs a escrever sobre esse personagem único e tão importante do universo artístico brasileiro. O livro, “A Primavera do Dragão”, conta a formação do mito Glauber desde sua infância até seus 25 anos de idade, quando lançou o filme “Deus e o Diabo Na Terra do Sol” e foi aclamado pela crítica no Festival de Cannes em 1964.

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Com a presença dos filhos Pedro Paulo e Ava Rocha, além do curador do Multiplicidade, Batman Zavareze, Nelson Motta debateu sobre a realização do livro e detalhes sobre a vida de Glauber, desde quando se conheceram até as vezes em que se encontravam no Rio e frequentavam rodas de amigos em comum, como o diretor Nelson Pereira dos Santos.

Em seguida, o A_Factory Tranzmídias apresentou “Kynoramas Glauber Machine”, espetáculo que remixa ao vivo trechos de filmes do Glauber. O coletivo, formado por Pedro Paulo Rocha, Fernando Falcoski e Caleb Luporini, surgiu em 2010 a partir de encontros de artistas de diferentes áreas que experimentavam processos híbridos nas artes, utilizando-se de diversas linguagens, meios e tecnologias. Os integrantes do grupo fazem um crossover de cinema, música, poesia, artes plásticas, performance e teatro.

Ao longo de aproximadamente 45 minutos, trechos de filmes como “Barravento” (1962), “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) e “Terra em Transe” (1967) e do programa de televisão “Abertura” (em meados dos anos 70), verdadeiros clássicos de Glauber, eram remixados e formavam uma narrativa não linear. A trilha sonora original também recebia essa roupagem de recorte e colagem, com alterações e somas de intervenções eletrônicas ao vivo feitas pelo coletivo.

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Pedro Paulo citou ainda no debate que “Kynoramas Glauber Machine” é uma sequência dos projetos de seu pai, que dialogava com o transcinema e buscava novos formatos de exibição e performance. Segundo ele, Glauber buscava locais pelo interior do Nordeste para criar novos espaços e formas de exibição, rompendo com o cinema tradicional.

Terminando a noite, o DJ Nado Leal, apresentando-se no térreo do Oi Futuro, encerrou a temporada de 2011 do Festival Multiplicidade, que contou com dez espetáculos audiovisuais inéditos no Rio de Janeiro, além de sessões de cinema, uma exposição fotográfica, debates, videoinstalações e intervenções urbanas em seu sétimo ano consecutivo no calendário da cidade.

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Retrospectiva Multiplicidade 2011: Matéria Obscura

Texto presente no livro-catálogo Multiplicidade 2011, a ser lançado no dia 13 de Setembro de 2012 no Oi Futuro Flamengo.

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Em sua segunda participação na Semana Especial do Festival Multiplicidade 2011, Thomas Köner apresentou com o artista visual alemão Jürgen Reble o premiado “Matéria Obscura”. Baseado na descoberta de que nosso universo é composto por matéria de cor escura e invisível, o espetáculo revelava as semelhanças abstratas entre o espaço sideral e o interior do corpo humano.

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Intrigando astrônomos desde sua descoberta, a matéria obscura (também conhecida como matéria escura ou negra) existe, mas é impossível de ser vista mesmo por telescópios ultrapotentes, sendo notada apenas através de raios ultravioletas ou de gravitação de outras matérias espaciais. Mesmo com telescópios de muitos recursos como o Hubble, apenas traços de sua existência são encontrados.

Jürgen, que se autointitula como um cineasta alquímico, utiliza imagens microscópicas de células e tecidos animais misturados a pigmentos químicos para simular essa matéria que não pode ser vista a olho nu. Esse material é capturado em filme de 16mm, de onde as cores vêm de produtos orgânicos sem qualquer manipulação digital.

Posteriormente, esse material é escaneado e, durante a performance, manipulado ao vivo pelo artista junto a imagens em alta resolução do espaço sideral cedidas pela NASA. Criando uma história desde a célula humana até imagens espaciais, um software amplia, reduz e mescla esses visuais de acordo com a vontade do artista.

Em mais 60 minutos de apresentação, Jürgen manipulou as imagens conforme a regência sonora imersiva e minimalista de Thomas Köner. A trilha do espetáculo simulava uma imensidão espacial, dando uma impressão de infinito, ao mesmo tempo em que as projeções dialogavam entre células e constelações.

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Retrospectiva Multiplicidade 2011: O Manifesto Futurista

Texto presente no livro-catálogo Multiplicidade 2011, a ser lançado no dia 13 de Setembro de 2012 no Oi Futuro Flamengo.

Thomas Köner é um artista multimídia e referência dentro da música eletrônica mundial, com uma carreira consistente no cenário de arte e tecnologia. Ao longo de sua carreira, criou diversas instalações e ambientações sonoras minimalistas, chegando até à produção do gênero musical conhecido como dub techno, e hoje se dedica à música eletrônica ambiente experimental.

No início do século XX, mais precisamente no ano de 1909, o italiano Filippo Marinetti escreveu e publicou no jornal francês Le Figaro o poema “Manifesto Futurista”, ressaltando a ambígua relação do homem com a máquina. Seu conteúdo fazia referência ao culto à velocidade e ao imperativo da era industrial que marcavam a etapa de modernização vivida então pela Itália.

Cem anos depois, Köner realizou uma pesquisa sobre o texto original para criar a performance “O Manifesto Futurista”, apresentada junto à pianista sérvia Ivana Neimarevic no quinto dia da Semana Especial do Festival Multiplicidade 2011.

A dupla criou uma peça audiovisual poética, com uma narrativa formada por imagens da época retrabalhadas. Ao mesmo tempo, a pianista utilizava as cordas e os martelos do piano sem tampo, distorcendo e amplificando timbres e frequências que eram transmitidos para a mesa de som de Thomas Köner, estes manipulados e remixados ao vivo num clima predominantemente sombrio.

A obra contava com imagens do início do século XX fazendo referência aos trabalhadores — exibindo seus músculos, sua força — e dialogando com outras de cidades em plena revolução industrial. Essas imagens randômicas funcionavam de forma hipnótica, metáfora da repetição das máquinas e da modernização das novas formas de trabalho. Esse conteúdo audiovisual soturno foi adicionado a passagens do poema declamado por Ivana, contrapondo as incertezas dessas experiências modernas que surgiam no período.

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Retrospectiva Multiplicidade 2011: Carlos Casas – EXPO_END e END_PERFORMANCE

Trechos de dois textos presentes no livro-catálogo Multiplicidade 2011, a ser lançado no dia 13 de Setembro de 2012 no Oi Futuro Flamengo.

EXPO_END

Participação de Bebeto Abrantes e Carlos Alberto de Mattos

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No segundo dia da Semana Especial do Festival Multiplicidade 2011, Carlos Casas abriu sua participação com uma exposição baseada na trilogia “END” no Instituto Cervantes de Botafogo. Com fotos e videoinstalações de seus trabalhos, a retrospectiva montada no centro cultural traçava um recorte antropológico da inusitada pesquisa sobre o trabalho do diretor que filma, edita e fotografa em suas viagens.

ImagemA exposição foi um resumo do trabalho realizado ao longo dos dez anos de pesquisas e captações de imagens da trilogia, filmada cronologicamente na Patagônia (extremo sul da Argentina), no Mar do Aral (Uzbequistão) e na Sibéria (extremo norte da Rússia).

A inauguração contou ainda com a exibição do filme “Sibéria — Hunters Since the Beginning of Time”, finalizado em 2010, seguida de um debate com o documentarista Bebeto Abrantes e o crítico de cinema Carlos Alberto de Mattos.

O bate-papo informal discutiu técnicas, olhares e processos do diretor, desde seus problemas linguísticos e de acesso até sua metodologia de trabalho e de criação de cada um dos filmes.

Contando com a participação do público, de curiosos até documentaristas profissionais, Carlos Casas respondeu a diversas perguntas referentes às dificuldades de realização dos seus filmes, além de falar do prazer de conhecer realidades tão distantes das vividas pelos homens urbanos. O autor ainda comentou o quanto essa experiência havia modificado seu modo de viver e lidar com pessoas.

Carlos Casas + Chelpa Ferro – END_PERFORMANCE

26 de novembro de 2011

Num dos mais importantes recortes temáticos do evento, o transcinema, tivemos o cineasta espanhol Carlos Casas, que se apresentou com o grupo experimental Chelpa Ferro na performance “END”, uma nova proposta audiovisual de sua trilogia. Ocupando um novo espaço dentro da Semana Especial do Festival Multiplicidade 2011, foi montado um anteparo cinematográfico incomum, dessa vez no galpão do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RJ), construído em 1906.

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A trilogia de Carlos já havia resultado em desdobramentos além dos filmes, como fotografias e instalações, mas pela primeira vez foi executada como performance.

Trechos dos três filmes foram remontados para uma compreensão narrativa através do suporte de projeção tríptico, junto ao acompanhamento sonoro do grupo Chelpa Ferro, que reinterpretava a trilha original dessas obras. As imagens funcionavam alternando diálogos entre si e outras vezes de forma independente, meramente estética, em que uma mesma cena ocupava uma, duas ou todas as três telas, incitando uma forma alternativa de ver cinema. A sincronicidade das imagens era controlada através do software Watchout.

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Criado em 1995 pelos artistas plásticos Barrão e Luiz Zerbini, e pelo editor de cinema Sergio Mekler, o Chelpa Ferro tem passagens na Bienal de Veneza e na de São Paulo, além de várias exposições individuais. Seu trabalho explora a plasticidade ruidosa dos sons em esculturas, objetos, instalações, performances e apresentações musicais que desafiam os sentidos do espectador.

O coletivo carioca, cujo trabalho permeia a experimentação e o improviso, utilizou diversos instrumentos eletroacústicos, desde guitarras distorcidas, uma caixa de música, até uma lata de lixo com cordas de cello amplificadas — batizada de Ruim — para criar um campo sonoro ao mesmo tempo hostil e plácido. O grupo ainda se apropriou de trechos da trilha original composta pelo argentino Sebastian Escofet, alternando sinfonias e sons diretos, sobrepondo camadas, recriando uma nova ambiência.

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Retrospectiva Multiplicidade 2011: Projeto Cavalo

Texto presente no livro-catálogo Multiplicidade 2011, a ser lançado no dia 13 de Setembro de 2012 no Oi Futuro Flamengo.

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O Projeto Cavalo foi criado em 2010 a partir da iniciativa dos artistas plásticos Cadu, Eduardo Berliner, Paulo Vivacqua e Felipe Norkus através do programa de estímulo à produção colaborativa patrocinado pelo British Council. Com o objetivo de se desenvolver em diversas linguagens artísticas, o coletivo então passou a buscar outras formas de expressão para o que viria a ser a apresentação no Multiplicidade um ano depois das primeiras conversas com os artistas.

Com a adição de Rodrigo Miravalles, Audrin Santiago, O DIVINO, Tonho e Bleque, os membros do grupo passaram a desenvolver suas expertises individuais dentro de um todo, o que resultou em esculturas, desenhos, pinturas, fotografias, vídeos, registros sonoros e textuais apresentados em exposições e mostras. Esse envolvimento coletivo deu ao projeto um amplo campo investigativo e um risco iminente do que se tornaria a performance final que abriu a Semana Especial do Festival Multiplicidade 2011.

Utilizando-se da figura do animal por seu simbolismo envolvendo poder, força e dominação, o grupo iniciou uma pesquisa que remete desde a lenda do Cavalo de Troia até os tempos atuais, abrindo com um filme criado especialmente para a apresentação, gravado no Jockey Club do Rio de Janeiro e no ateliê de trabalho do coletivo. Essa projeção, feita numa tela translúcida, era acompanhada de uma poesia contemplativa.

ImagemImerso em um ambiente sombrio, o público experimentava uma análise subjetiva sobre a vida do animal, desde seu nascimento ao sacrifício, em cenas fortes interpretadas pelos nove membros do coletivo, que se revezavam em diferentes funções. Ao final, esses instrumentos eram reunidos no centro do palco, formando uma estrutura de madeira como um verdadeiro e imponente cavalo. Pinturas e figurinos, criados respectivamente por Eduardo Berliner e as estilistas da Muggia, completavam o conceito de forma visceral.

A Semana Especial do Festival Multiplicidade 2011 aconteceu do dia 24 de novembro ao dia 1° de dezembro, com um formato jamais experimentado pelo evento, reunindo uma série de atividades diariamente. Foram performances, debates, exposições, instalações e sessões de filmes montados em diferentes espaços da cidade, como centros culturais e espaços públicos, abrigando uma diversidade de linguagens artísticas para um público ampliado. O Projeto Cavalo abriu a sequência das atividades com sua performance no teatro do Oi Futuro Flamengo e, três dias depois, numa praça pública no bairro da Tijuca.

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Retrospectiva Multiplicidade 2011: Embolex – “Caixa-Prego”

Texto presente no livro-catálogo Multiplicidade 2011, a ser lançado no dia 13 de Setembro de 2012 no Oi Futuro Flamengo.

ImagemO Embolex é um coletivo audiovisual de São Paulo cujas performances se utilizam de processos colaborativos para recriar sons e imagens, manipulados digitalmente, com objetivo de expressar o que se denomina como cultura do remix e do sampling. Utilizando instrumentos acústicos, elétricos e digitais, e a palavra declamada, o grupo data sua fundação em 2001, sendo hoje formado por Fernão Ciampa, Pedro Angeli, Cristian Bueno, Sylvio Ekman e Erico Theobaldo.

Com a democratização do acesso a fonogramas através da internet, diversos DJs e produtores musicais passaram a explorar novos modos de produção e experimentação que, dentre tantos estilos, popularizaram a cultura do “mashup”. Essa linguagem de cortar-colar, notada já em gravações de Frank Zappa nos anos 70, caracteriza-se por dois ou mais elementos de músicas justapostos harmonicamente para recriação de uma nova canção. Essa cultura do remix para gerar um trabalho inédito é alvo de diversos debates, principalmente no que tange aos direitos autorais dos criadores, como mostra o documentário “Rip It! A Remix Manifesto”, uma cibercondição de existência

criativa para muitos.

Liderado pelo VJ Fernão Ciampa, o grupo realiza uma colagem com imagens de fotos, cartões-postais e vídeos de viagens coletadas entre amigos e anônimos, criando um verdadeiro mosaico que mistura diversos pontos do planeta, junto a uma trilha composta em camadas, no chamado globalguettotech.

A mixtape homônima, lançada em 2010, misturava músicas desde Martinho da Vila a The Rapture, ou de Paul McCartney a Caetano Veloso, entre tantos outros artistas, o que lhes rendeu reconhecimento de jornalistas especializados e serviu de base para a apresentação. Somente depois da existência do áudio criou-se um mashup cinematográfico, resultado final do espetáculo “Caixa- Prego”. Com isso, Ray Conniff orquestrava uma música do Michael Jackson, Paulinho da Viola cantava com Elis Regina e Vinicius de Moraes em canções diferentes, como um libertário exercício audiovisual.

ImagemAlém dos cinco integrantes do Embolex, “Caixa-Prego” contou com as participações especiais do MC Rodrigo Brandão (Mamelo SoundSystem, Ekundayo) e do baixista Dengue (Nação Zumbi), trazendo uma cadência musical mais pontuada.

O grupo apresentou uma viagem por diversos estilos musicais, tendo como base ritmos periféricos, como dub, reggae, reggaeton, cumbia, entre outros. Rodrigo, rapper e pesquisador de black music brasileira, costurava suas rimas improvisadas por dentro das melodias.

Uma projeção maior envolvia os sete integrantes do coletivo e, com uma segunda projeção mapeada, a mesa e os computadores portáteis recebiam uma pontual interferência videográfica, criando um novo volume como anteparo. As edições de imagens, assim como os DJs utilizam na música, passavam por “scratchs” sincronizados com o som.

Retrospectiva Multiplicidade 2011: Lise + L_ar – “Reações Visuais”

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Texto presente no livro-catálogo do Multiplicidade 2011, a ser lançado no dia 13 de Setembro de 2012 no Oi Futuro Flamengo.

Lise + L_ar é uma dupla de artistas audiovisuais de Belo Horizonte formada pelo arquiteto e artista visual Leandro Araújo e pelo músico Daniel Nunes. Leandro teve trabalhos premiados na categoria Arte Digital (Prêmio Bravo! 2010) e na categoria Arte Cibernética (Rumos — Itaú Cultural). Daniel Nunes tem um trabalho musical bem autoral, misturando uma base instrumental com uma onda transcendental para criação de seus timbres sonoros. Seus projetos musicais, Constantina (sua banda com outros sete integrantes) e Lise foram indicados em 2011 como um dos cem melhores discos do Brasil, pela revista on-line Rock in Press.

ImagemO foco conceitual dos dois é realizar performances a partir de áudio captados em diversos locais públicos, manipulados digitalmente junto a projeções sincronizadas que reagem a essas amplitudes sonoras.

Reações Visuais tem como base o conceito de paisagens sonoras e foi desenvolvido pelo compositor e acadêmico canadense Raymond Murray Schafer, que define que sons ou suas combinações transcrevem a ecologia acústica de um local.

Áudios, tanto de fontes naturais (como o vento ou pássaros) como de intervenções humanas (buzinas de carros, falas ou o caminhar das pessoas), formam uma ambientação rica de informação e matéria-prima na composição das peças de Lise + L_ar.

A apresentação teve seu início na rua, onde Lise utilizava o software Skype num smartphone com acesso à internet para capturar e enviar sinais sonoros direto da praça anexa ao centro cultural Oi Futuro até o teatro. Esses sons, barulhos e ruídos interagiam com as projeções dentro do teatro, através de imagens controladas por L_ar, criando um prelúdio da peça audiovisual que estaria por vir.

ImagemA obra, dividida em quatro momentos, apresentou diversas cidades do Brasil pré-mapeadas pela dupla, que receberam um tratamento musical ao vivo composto por uma bateria e um vibrafone, além de programações eletrônicas, com duração de aproximadamente 50 minutos. Nos atos seguintes, os artistas replicaram diversas partes de Belo Horizonte, sua cidade natal, como a Rua Guaicurus, o Parque Municipal e a Praça Sete de Setembro; além do centro da cidade de São Luís, no Maranhão.

Na parte visual, Leandro concebeu como cenário uma projeção principal em um ciclorama simetricamente rebatido num espelho d’água instalado dentro do teatro. As imagens, com um forte apelo tecnológico pela sua estética muitas vezes holográfica, criavam nessa dupla exposição uma imersiva ilusão de profundidades.

Após o espetáculo, aconteceu o lançamento do livro “O Fator VDM”, de Luis Marcelo Mendes, dedicado a profissionais e clientes de diversas áreas que lidam com o ambiente criativo.

Retrospectiva Multiplicidade 2011: Scanner – “Borders, Unto the Edge″

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Texto presente no livro-catálogo do Multiplicidade 2011, a ser lançado no dia 13 de Setembro de 2012 no Oi Futuro Flamengo.

O músico e produtor inglês Robin Rimbaud, conhecido como Scanner, iniciou sua carreira no ano de 1992, com um trabalho que se utiliza de sons, espaço e imagens de modos completamente não convencionais. Essa pesquisa musical começou com linhas cruzadas e conversas de anônimos ao telefone, que posteriormente o levou ao projeto “sons da metrópole moderna”, uma tradução artística das influências auditivas presentes nas cidades. Seu trabalho, referência nos palcos de festivais de música eletrônica, também traz experiências com o cinema, como criaçãode trilhas sonoras ao vivo para filmes de Alain Resnais e Hitchcock.

ImagemScanner é um dos artistas atuais mais respeitados da cena eletrônica, admirado por artistas como Björk, Aphex Twin e Karlheinz Stockhausen. Vencedor de diversos prêmios de arte, música e tecnologia, seu trabalho hoje se encontra no Science Museum London (Sound Curtains), no The Darwin Centre at the Natural History Museum London e no Northern Neuro Disability Services Centre em Newcastle UK (Turning Light), além de colaborações com artistas contemporâneos como Laurie Anderson e Radiohead.

Também professor e artista residente da escola francesa de artes visuais Le Fresnoy, Scanner veio ao Rio de Janeiro para participar de exposição criada no Museu da Maré, em Bonsucesso, periferia da cidade, com uma instalação inédita chamada “Falling Foward”, além de ministrar uma palestra no Oi Futuro Ipanema (tema: Cidade-Dispositivo) e uma performance no Oi Futuro Flamengo. O Le Fresnoy é um centro de experimentação de imagem e som, onde alunos do mundo todo estudam sem professores permanentes, com artistas e teóricos convidados que orientam seus trabalhos, além de produzir junto a eles, durante a residência na escola.

A performance “Borders, Unto the Edge” trouxe o mais recente trabalho do artista, que circulava por combinações harmônicas livremente abertas. Ao som de sinfonias e até sons urbanos, Scanner mixou ritmos eletrônicos com vozes pré-gravadas e outros samplers mais orgânicos, amparado por uma projeção contemplativa em que uma paleta de cores se modificava conforme a alteração das ondas musicais.

Scanner criou uma espécie de hipnose sonora, com bases pré-programadas adicionadas aos efeitos controlados ao vivo. Do palco, o músico criou, manipulou e editou seu som, numa espacialidade imersiva.

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Retrospectiva Multiplicidade 2011: Moleculagem – “Fixos-Fluxos 2″

Texto presente no livro-catálogo do Multiplicidade 2011, a ser lançado no dia 13 de Setembro de 2012.

ImagemColetivo carioca formado em 2005, o Moleculagem explora as possibilidades de unir arte, vídeo, música e tecnologia em projetos audiovisuais, performáticos e multissensoriais, criando instalações ótico-sonoras imersivas com projeções em estruturas volumétricas, manipuladas com ajuda de softwares precisamente mapeados e sincronizados.

Formado pelos VJs Bernardo Varela, Sol Galvão e Alexandre Aranha, além dos músicos Pablo Ribeiro e Pedro Conforti, cada integrante tem trabalhos paralelos em diferentes áreas, como publicidade e cinema. No Moleculagem se desenvolvem projetos de arte eletrônica, unindo música a visualidades interativas. Em 2010 criaram uma complexa instalação, a obra “Fixos-Fluxos”, para a Bienal das Américas, em Denver, reproduzidano Festival Multiplicidade.

ImagemEm “Fixos-Fluxos 2”, o coletivo se propôs ir além, optando por criar uma verdadeira ópera-pixel dividida em oito atos inspirados em teorias do psicólogo e escritor Timothy Leary. Ícone da contracultura e posteriormente chamado de “papa lisérgico”, Leary desenvolveu a ideia de que existem oito circuitos que representam o desenvolvimento do cérebro humano, seu relacionamento com o “eu” interior e o plano espiritual, base conceitual dessa apresentação.

Durante quase uma hora, o público experimentou um verdadeiro live- cinema geométrico projetado em cima de um anteparo tridimensional de 4 metros de altura por 7 de largura criado especialmente para essa apresentação, e comandado por Bernardo, Alexandre e Sol. Simultaneamente, o baterista Pablo e o multi-instrumentista Pedro criavam uma misteriosa ambientação sonora ao vivo, evoluindo do eletrônico ao rock progressivo. 

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Retrospectiva Multiplicidade 2011: Zach Lieberman + Daito Manabe

Texto presente no livro-catálogo do Multiplicidade 2011, a ser lançado no dia 13 de Setembro de 2012.

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Zachary Lieberman, americano, e Daito Manabe, japonês, escalados para abrir a temporada do Festival Multiplicidade 2011, são dois dos mais importantes artistas de arte eletrônica do mundo, mas também podemos dizer que são pesquisadores digitais ou hackers, como se autodenominam. Eles pensam em robótica, instalações interativas, códigos e programação computacional compulsivamente. Acumulando premiações por diversos festivais internacionais, os dois trabalham com dispositivos interativos que visam expandir os limites do corpo humano.

Verdadeiros nômades da era digital, viajam e produzem em qualquer espaço-tempo, sempre conectados. Ambos fazem parte de coletivos de desenvolvimento de softwares e tecnologias que trabalham de forma colaborativa, em que projetos são executados a distância, compartilhando conhecimentos com mentes espalhadas por todo o planeta. Esses grupos trabalham em laboratórios digitais, os MEDIA_LAB, onde mesclam artistas digitais com vasto conhecimento em programação junto a engenheiros, físicos, matemáticos, músicos, biólogos, bailarinos, designers, todos assumidamente “nerds” e que complementam descobertas livremente entre si.

Zach também é professor da Parsons School em Nova York e defende em suas criações o “DIWO” (do it with others), faça com os outros, em contraponto à famosa expressão “DIY” (do it yourself), faça você mesmo.

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Um de seus mais expressivos feitos compartilhados é o “Eyewriter”, óculos desenvolvidos com outros cinco artistas utilizando o Open Frame Works (softwares livres com códigos-fonte abertos), em que a pupila ocular é mapeada e pode controlar um programa computacional sem contato físico algum com mouses, teclados e telas. Dentre inúmeros prêmios, Eyewriter foi considerado uma das 50 melhores invenções de 2010 pela revista Time.

Dividida em três atos, essa apresentação conjunta e inédita no Multiplicidade desses dois artistas mostrou a interseção de tecnologia e ilusionismo, recheada com efeitos lúdicos e experiências corporais.

Primeiro, Zach apresentou sua obra “drawn”, normalmente exposta em museus e galerias, no formato de performance, em que os desenhos saem do papel e se transformam num videogame. Através de imagens desenhadas com nanquim em folhas brancas, o artista manipulava com os dedos seus traços num ambiente virtual, através de sensores e um software interativo com técnicas de realidade aumentada. A cada movimento, os desenhos eram transformados em novas formas a partir de suas intervenções. Criou-se uma intrigante regência sonora, num jogo ambíguo entre o real e o virtual.

No segundo ato, Daito Manabe trouxe para o teatro sua aclamada performance “electric Stimulus”. Sucesso nas redes sociais, semanas antes havia se apresentado na 18a edição do festival catalão Sónar, Daito, em dupla com um voluntário, utilizou 16 elétrodos que geraram choques de 8 volts no rosto de cada um, de acordo com a música ao vivo manipulada, através de softwares e de um “wiimote” (controle do videogame Nintendo Wii), transcorrendo do minimal ao jungle de acordo com a vontade do artista.

Finalizando a performance, foi apresentado pela primeira vez no mundo o experimento “Face Projection”, tecnologia desenvolvida pela dupla em que a projeção milimétrica do rosto de Daito reagia de forma orgânica aos mais diversos movimentos faciais. Localizados à sua frente, uma pequena câmera e um pequeno projetor em registro captavam as reações do artista, desde o piscar dos olhos até uma leve contração muscular, transformando seu rosto numa tela mapeada, como uma verdadeira máscara digital pixelada.

Terminando a noite, o DJ e produtor musical Nado Leal tocou junto com a DJ Mary Zander no coquetel de abertura da sétima temporada do Festival Multiplicidade no espaço cultural Oi Futuro Flamengo.